"Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuere" (Justiça é a vontade firme e permanente de dar a cada um o que lhe é de direito".(ULPIANO, jurista romano)
Mariane de Oliveira
Da Redação
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) investiga esquema de fraude na distribuição de processos e venda de sentenças no Tribunal de Justiça. Pelo menos um desembargador figura entre os investigados, além de servidores e do assessor do magistrado. O relator do inquérito é o ministro João Otávio de Noronha.
O esquema foi descoberto em 2007 pela empresa Velloso & Bertolini, contratada pelo então presidente do TJ, Paulo Lessa, para realizar auditoria na folha de pagamentos de magistrados. Na época havia no TJ comentários sobre fraude na distribuição dos processos, com o objetivo de direcionar as ações para este ou aquele magistrado, com o qual já estava acertada a venda da decisão judicial. Diante dos comentários, o corregedor-geral de Justiça, desembargador Orlando Perri, pediu à presidência que fizesse um aditivo ao contrato com a empresa, para que ela também realizasse auditoria na distribuição e apontasse sugestões de melhorias no setor.
Dos 1,6 mil processos auditados, foram encontradas irregularidades na distribuição de 615. A Corregedoria encaminhou para a Delegacia Fazendária, para quebra do sigilo telefônico, os nomes dos lobistas suspeitos de atuar no TJ. A investigação não pode ser concluída porque a informação vazou, e chegou aos próprios suspeitos. Poucas semanas depois, a Corregedoria recebeu um documento do Ministério Público informando a existência de uma denúncia envolvendo o desembargador, que tem foro privilegiado e só pode ser investigado pelo STJ.
Saiba Mais:
Máfia das sentenças segue fraudando a distribuição de processos em MT
Mesmo depois do instauração de procedimento investigatório pela presidência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso para investigar a venda de sentenças judiciais, os fraudadores dos sorteios da distribuição de processos continuaram atuando. A última evidência de que um processo foi desvirtuado foi coletada na segunda-feira passada, menos de 72 horas depois que o ex-coordenador do Departamento de Informática Mauro Ferreira Filho foi flagrado com os clones de quatro computadores do setor de distribuição do TJMT na memória de seu notebook. De acordo com uma fonte do tribunal, Mauro está afastado de suas funções desde então.
O problema aconteceu quando o advogado Flávio Maldonado tentou protocolar um recurso contra a decisão do desembargador-zumbi José Tadeu Cury que beneficiava a empresa de ônibus do deputado Pedro Satélite. Maldonado, um dos advogados mais respeitados do Páis na área de transportes, foi surpreendido pela mudança repentina do nome do julgador a quem o processo havia sido sorteado.
"Eu já estava esperando há quatro horas pela distribuição do processo na secretaria do Tribuna quando fui informado por uma serventuária de que o mandado de segurança havia caído para o desembargador Márcio Vidal", disse o advogado em entrevista ao Blog. "Mas em seguida um rapaz acessou a tela de um computador e me informou que o julgador sorteado havia mudado, era outro, Carlos alberto Alves da Rocha", afirmou Maldonado.
O advogado estranhou a mudança repentina e decidiu comunicar o fato à diretora do setor de distribuição. "Ela pediu desculpa, disse que sabia que coisas estranhas estavam acontecendo no departamento e prometeu investigar".
Enquanto isso acontecia, o desembargador sorteado declinou da competência para julgar o mandado de segurança. Não se sabe se a decisão do juiz foi motivada pela mesma estranheza ou não. O fato é que Carlos Alberto Alves da Rocha determinou que o processo fosse redistribuído e o remeteu de volta à secretaria do TJ.
O novo sorteio só aconteceu no dia seguinte, 9 de março. Diante dos fatos suspeitos, o advogado fez questão de acompanhar pessoalmente o o procedimento na sala da distribuição. Mas teve que enfrentar a ira e as altercações de um homem que parecia inconformado com sua presença no local. "Era um homem de cavanhaque, cabelos grisalhos, que falou comigo rispidamente", diz o advogado, que não sabe quem era nem qual era função dessa pessoa, aparentemente um dos serventuários do setor.
O mandado de segurança foi então distribuído para o desembargador Evandro Stábile, que derrubou a liminar concedida quatro dias antes-- e 24 horas depois que sua aposentadoria compulsória já estava formalizada pelo CNJ -- pelo zumbi José Tadeu Cury , .
Em função disso, o processo número 21288/2010 teve uma movimentação atípica. O protocolo registra 19 movimentos em apenas dois dias, o que exigiu dos advogados que demandam contra a empresa do deputado Pedro Satélite uma verdadeira maratona judicial. "Deu muito trabalho e aborrecimento, mas o que importa é que se fez justiça nesse caso", comemora Maldonado.
Fonte: Blog do Pannunzio
Lessa teme agressão e diz que é inimigo de Travassos
Téo Meneses
Da Redação
Apontado como um dos responsáveis pelas investigações que revelaram pagamentos irregulares e milionários no Judiciário de Mato Grosso, o desembargador recém-aposentado Paulo Lessa afirma ter medo de sofrer represálias, inclusive violência física. Ele nega, porém, que tenha sido esse o motivo de optar pela aposentadoria voluntária. Garante também que a decisão não tem a ver com a investigação que responde no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mas foi enfático ao afirmar que "instalou-se sem saber o motivo uma inimizade (entre ele e Mariano Travassos, presidente que foi afastado pelo CNJ)" e que o clima na instituição está insustentável.
As afirmações de Lessa foram feitas ontem durante entrevista na qual ele falou pela primeira vez sobre a aposentadoria voluntária requerida ao Tribunal de Justiça (TJ) de Mato Grosso na manhã de quinta-feira (11) e deferida poucas horas depois. O desembargador sai de cena 10 anos antes do prazo para a aposentadoria compulsória.
Apesar de admitir o receio de sofrer represálias, Lessa descartou contratar segurança particular agora que está aposentado. "Existe sim essa preocupação de sofrer violência física. Quando o ser humano se sente acuado como um animal, ele se torna uma ameaça. Por isso, a gente tem que se precaver", afirmou Lessa, evitando citar nomes. Ele também tentou minimizar a declaração dizendo que esse alerta vale para qualquer pessoa.
Aos 60 anos de idade e 30 de magistratura, Lessa alega que optou pela aposentadoria voluntária porque já havia prometido pra si mesmo dedicar-se às questões pessoais após três décadas como juiz e desembargador. Diz ainda que se sente cansado e com a missão cumprida, mas não está fugindo à responsabilidade. A entrevista foi concedida na sede da Associação Mato-grossense dos Magistrados (Amam).
CNJ - Em relação às investigações do CNJ, Lessa alegou que os valores que teria recebido, assim como sua esposa, Déa Lessa, foram manipulados criminosamente. Afirma acreditar ainda que o Conselho vai confirmar a versão. "Esses números foram manipulados de forma criminosa e divulgados da mesma forma. Eu não recebi o que falam que recebi. Esta é uma das questões que serão esclarecidas. A partir daí vou estudar a possibilidade de acionar na Justiça todos aqueles que assacaram contra a minha honra e a honra de minha família".
Lessa não falou em valores, mas, questionado pela imprensa, garantiu que o montante que ele teria recebido assim como sua esposa não passa de R$ 1 milhão. "Até para não promover nenhum constrangimento, cabe ao CNJ dizer quais os valores legalmente devidos". Divulgou-se que somente a esposa do desembargador teria recebido R$ 1,2 milhão a título de créditos trabalhistas no TJ.
Venda de sentenças - Lessa foi presidente do Tribunal de Justiça entre os anos de 2007 e 2009, quando começaram a ser investigados através de auditoria os valores pagos a servidores e magistrados. Naquele momento, surgiram também os primeiros indícios de um esquema de venda de sentenças a partir da fraude em distribuição de processos.
As investigações correm em segredo no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no CNJ, mas o desembargador aposentado admitiu que as primeiras informações apontaram para o envolvimento de pelo menos quatro servidores e advogados que negociariam a distribuição de processos. Cada negociação, segundo ele, giraria em torno de R$ 10 a R$ 30 mil. "Existiam comentários, mas inicialmente não se detectou participação de magistrado. Isso não foi divulgado porque o objetivo era manter a investigação para pegar algum grande lobista ou mesmo magistrado. Depois que a informação vazou, o caso subiu para o STJ".
Auditoria - Sobre a decisão do CNJ de julgar parcialmente procedente o Procedimento de Controle Administrativo (PCA) a respeito da auditoria contratada sem licitação pela diretoria passada, o ex-presidente do TJ frisou que o Conselho reconheceu a validade da contratação junto à empresa Velloso & Bertollini, apesar de determinar uma investigação na Corregedoria. "Só não fizemos licitação porque o sigilo era essencial naquele momento e seria fatal qualquer divulgação mesmo através de processo licitatório".
O desembargador diz que a auditoria foi instaurada depois de sugestão do setor responsável pelo controle interno do Judiciário. Foi a partir daí que começaram a surgir indícios de irregularidade nos pagamentos de créditos a servidores e magistrados.
Mal-estar - Lessa também classificou a crise por que passa o Judiciário do Estado como a pior da história do Poder e isso se deve à formação de grupos e o corporativismo no Tribunal. Segundo ele, isso fez com que continue insustentável o clima no TJ mesmo depois da aposentadoria compulsória de sete juízes e três desembargadores acusados de desvio de recursos para socorrer uma cooperativa de crédito da maçonaria. A punição foi determinada pelo CNJ depois da auditoria contratada pelo TJ.
Lessa disse ainda que continua sendo alvo de retaliações e pessoas estariam tentando envolver em escândalos os seus filhos Fábio e Paulo Inácio Helene Lessa. Apesar disso, ele diz acreditar que a crise não afeta a imagem do Judiciário. "Acredito que houve um desleixo de forma geral ao longo do tempo (...) Até tentei falar isso algumas vezes, mas era uma voz isolada". Lessa é apontado como um dos responsáveis pelas investigações que revelaram pagamentos irregulares e milionários no Judiciário juntamente com o ex-corregedor do TJ, desembargador Orlando Perri.
Outro lado - Sobre a declaração de Paulo Lessa, o desembargador aposentado Mariano Travassos reagiu com ironia. "Agora não sou mais homem público, não tenho que falar sobre isso (o fato dele ter se tornado inimigo do magistrado aposentado).
Fonte A Gazeta



