domingo, 2 de agosto de 2020

OS CONLUIOS DA VOLKS, DO NAZISMO A BOLSONARO


Torturas na fábrica brasileira, durante a ditadura. Emprego a chefe de campo de concentração. Entusiasmo com o presidente de ultradireita. Na trajetória de uma grande corporação global, a evidência do divórcio entre capitalismo e democracia



Outras Palavras

Por Murilo Leal e Gabriel Dayoub

Há cinco anos, a Volkswagen enfrenta um Inquérito Civil Público que a investiga por graves violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura civil-militar brasileira. É o primeiro caso do tipo no Brasil, em que uma empresa é formalmente acusada por crimes em conjunto com o regime autoritário. Após anos de uma difícil negociação, a montadora segue criando novas dificuldades, impedindo a chegada num acordo e sabotando o pilar central da reparação por seus crimes: a constituição de um espaço de memória dos trabalhadores.

O inquérito é uma operação conjunta do Ministério Público Federal, Ministério Público do Estado de São Paulo e Ministério Público do Trabalho. Foi motivado por denúncia apresentada em setembro de 2015, por iniciativa do Fórum de Trabalhadores por Verdade, Justiça e Reparação. A pesquisa, que deu continuidade aos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade (2012-2014) e da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo – Rubens Paiva (2012-2015), foi realizada pelo IIEP (Intercâmbio, Informação, Estudos e Pesquisas) e teve o apoio unitário de todas as centrais sindicais brasileiras, juristas e personalidades da luta por direitos humanos.

Um rastro de crimes

As investigações comprovaram que as violações cometidas pela empresa faziam parte de um método sistemático de intimidação dos trabalhadores nas fábricas, inibindo sua organização política e em movimentos reivindicatórios. Seu Departamento de Segurança Industrial foi chefiado por 30 anos pelo doronel Adhemar Rudge, militar com relações estreitas com a repressão política. Prisões de funcionários pela polícia política com a participação direta da empresa foram registradas com dois depoimentos muito contundentes, de Lúcio Bellentani e Heinrich Plagge. No caso de Lúcio, as sessões de tortura se iniciaram no interior da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, com a participação do Departamento de Segurança Industrial. Os dois foram sequestrados em 1972, numa onda de capturas que atingiu mais de 10 militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que trabalhavam na fábrica.

A montadora participou, ainda, como membro mais ativo e espécie de coordenadora, de organismos que reuniam grandes empresas e órgãos da repressão política para trocas de informações. Dentre eles, o mais bem documentado é o Centro Comunitário de Segurança do Vale do Paraíba, região industrial estratégica no interior de São Paulo. Nas diversas atas de reunião encontradas, fica comprovada a participação de grandes empresas, como Caterpillar, Ford, General Motors, Kodak, Rhodia, Villares, Embraer e Petrobras, do Exército, da Aeronáutica e das Polícias Militar, Civil e Federal.

A Volkswagen enfrenta, ainda, fortes questionamentos em relação a seu famoso empreendimento na Amazônia, a Fazenda Vale do Rio Cristalino, iniciado em 1974. Construída com vasto incentivo da ditadura brasileira, a fazenda pretendia estabelecer um novo modelo de exploração pecuária. Foram desmatados 4.000 hectares, num crime ambiental de grandes proporções. A empresa pode ter-se valido, ainda, da exploração de mão de obra escrava para sua fazenda “modelo”, como comprovado em 1983 por comissão da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, encabeçada pelo deputado Expedito Soares (PT-SP). A expedição foi realizada a partir de denúncia do Padre Ricardo Resende, da Comissão Pastoral da Terra, que acompanhou e testemunhou trabalhadores amarrados e jagunços armados na Fazenda [1].

Caso ainda mais nebuloso é o de Franz Paul Stangl. Responsável por chefiar os campos de extermínio de Sobibór e Treblinka na Polônia ocupada pelo III Reich alemão, Stangl conseguiu escapar por uma das muitas rotas de fuga criadas para proteger os grandes criminosos de guerra do nazismo. Após passar pela Síria, chegou ao Brasil em 1951 com documento de refugiado emitido pela Cruz Vermelha. Em 1959, Stangl passou a trabalhar na Volkswagen do Brasil, sempre com seu nome verdadeiro. Embora tivesse um gigantesco aparato de segurança e repressão interno, em conexão direta com o Estado brasileiro, a montadora nega que soubesse do passado sombrio de seu funcionário. Stangl seria localizado graças à ação de Simon Wiesenthal, o “caçador de nazistas”. Foi preso em 1967 e teve sua extradição solicitada pela Áustria, Polônia e República Federal da Alemanha. Em entrevista ao jornalista Marcelo Godoy, José Paulo Bonchristiano, chefe da Divisão Política do Dops de São Paulo e responsável pela prisão do nazista a pedido da Interpol, mencionou o incômodo da empresa durante a captura [2]. A Volkswagen chegou a recomendar um advogado para a defesa de Stangl, que acabaria condenado pelo assassinato de 400 mil pessoas.

Da participação na ditadura à saudação a Bolsonaro

Ainda hoje, figuras importantes da história da Volkswagen não escondem seu apreço por regimes ditatoriais, como registrado no documentário Cúmplices [3], produzido em 2017. É o caso, por exemplo, de Jacy Mendonça, executivo que chefiou a área de Recursos Humanos da montadora, que qualificou a ditadura como “um período extraordinariamente positivo” para as empresas e para o Brasil, “porque havia ordem”. Ou Carl Hahn, presidente do Grupo Volkswagen entre 1982 e 1993, que afirmou que na época não se inquietou com o golpe militar de 1964 e que não se recordava que os dirigentes da Volkswagen tivessem “chorado pelo desaparecimento da democracia”. Sua lembrança coincide com a opinião expressa à época por Werner Shmidt, presidente da empresa no Brasil de 1971 a 1973, que declarou à imprensa alemã: “É claro que a polícia e os militares torturam prisioneiros. Dissidentes políticos (…) são assassinados. Mas uma análise objetiva deveria sempre ter em conta que as coisas simplesmente não avançam sem firmeza. E as coisas estão avançando” [4].

Recentemente, a companhia fez um investimento de R$ 2,4 bilhões no Brasil, em excelente relação com o atual governo brasileiro. Após a eleição de Jair Bolsonaro – numa campanha marcada pelo saudosismo da ditadura militar, pelo elogio à tortura e pelo anticomunismo – diretores da Volkswagen registraram o apoio da empresa ao “recomeço do Brasil”, posaram para fotos com o governador do Rio de Janeiro, o então bolsonarista Wilson Witzel. O argentino Pablo de Si, presidente da Volkswagen na América Latina, saudou com entusiasmo a chegada da extrema-direita ao poder [5].

A reparação necessária

O Inquérito Civil Público que investiga a empresa foi instaurado em setembro de 2015, coincidindo com o escândalo do dieselgate, que colocou a Volkswagen na mira da opinião pública mundial. Após uma fase de desprezo pelo procedimento, a pressão pública obrigou a companha a iniciar uma negociação com as autoridades brasileiras. Para a tentativa de uma reparação pelos crimes cometidos, foram elencados pontos caros à Justiça de Transição.

Entre os diversos pontos levantados, destacamos a constituição de um espaço de memória, dedicado à luta da classe trabalhadora contra a ditadura e à participação empresarial no golpe de 1964 e em violações de direitos humanos durante o regime. A tentativa de constituir esse local – que vem sendo sistematicamente sabotada pela empresa – faz parte de um compromisso firmado entre as centrais sindicais brasileiras e todos os que participaram do Grupo de Trabalho Ditadura e repressão aos trabalhadores e ao movimento sindical (GT-13) da Comissão Nacional da Verdade, como registrado nas recomendações do grupo à CNV. Sela, ainda, a compreensão comum construída: o golpe de 1964 não foi uma quartelada, mas uma ação de classe que contou com a participação ativa do empresariado nacional e transnacional e suas organizações, rebaixando os padrões de vida da classe trabalhadora, destruindo suas organizações e maximizando lucros. Daí a centralidade do registro da classe trabalhadora como sujeito da resistência e como alvo da ditadura civil-militar.

Como afirmaram Adriano Diogo*, Rosa Cardoso** e Sebastião Neto*** em manifesto distribuído em 13 de março de 2020, durante o seminário que marcou os cinco anos da Comissão Verdade do Estado de São Paulo – Rubens Paiva,

A ação padrão das empresas é agir para apagar a seus crimes. Por todo o mundo, corporações sempre mobilizam seu poder financeiro para apagar seus crimes e não serem mais perturbados. Não aceitaremos esse tipo de chantagem. Garantir um local de referência – que possa ser visitado e conhecido e, também, atuar na produção e difusão de conhecimento – é reafirmar que nossa memória não está a venda.

Murilo Leal é professor do Departamento de História da Unifesp-Osasco e integrante do Projeto memória da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo.

Gabriel Dayoub é pesquisador do IIEP e integrante do Projeto memória da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo.

* Presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo – Rubens Paiva (2012-2015)

** Integrante da Comissão Nacional da Verdade (2012-2014) e coordenadora do Grupo de Trabalho Ditadura e repressão aos trabalhadores e ao movimento sindical (GT-13)

*** Secretário-executivo do GT-13 da Comissão Nacional da Verdade (2013-2014) e coordenador do IIEP

Referências:

[1] https://www.brasildefato.com.

[2] https://politica.estadao.com.

[3] https://www.youtube.com/watch?

[4] A declaração foi lembrada pelo historiador Antoine Acker no artigo “‘The Brand that Knows our Land’: Volkswagen’s “Brazilianization” in the “Economic Miracle”, 1968-1973”. Disponível em: https://www.cairn.info/revue-

[5] Ver o importante artigo de Acker “A responsabilidade histórica da Volkswagen no Brasil de Bolsonaro”, disponível em: https://www.cartacapital.com.


Fonte Outras Palavras

https://www.facebook.com/antoniocavalcantefilho.cavalcante

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Brasil está perto de 100 mil mortes na pandemia e há indiferença em massa


“É como se estivéssemos anestesiados frente ao grande número de mortes”, diz o sociólogo Rodrigo Augusto Prando, sobre a onda de indiferença em massa enquanto o Brasil aproxima-se dos 100 mil mortos pelo coronavírus.





O país aproxima-se dos 100 mil mortos pelo coronavírus e grassa a indiferença. “É como se estivéssemos anestesiados frente ao grande número de mortes”, avalia o sociólogo Rodrigo Augusto Prando, da Universidade Mackenzie. “Depois de um período de crise, todos clamam pela volta do normal e, até como sentido de autodefesa, a pessoa para de olhar o número de mortes. Cansadas, tristes, chegam à conclusão de que a vida tem de seguir, daí o termo novo normal.

Estamos vivendo a normalidade dentro da anormalidade”, disse ele ao jornalista José Maria Tomazela, de O Estado de S.Paulo.

O total de mortes diárias pelo coronavírus é o equivalente à queda de três grandes aviões comerciais lotados, mas o número não choca mais. Nesta quarta-feira (29), o número de mortes chegou a 90,2 mil, mas há enorme descumprimento às regras de isolamento social e volta à rotina em praias, restaurantes e festas, como se o Brasil estivesse à margem da tragédia mundial. Embora a média oscile, o país está próximo de mil mortos por dia desde o começo de junho. Assiste-se pressão velada e escancarada do empresariado para a reabertura total dos comércio e a “normalização” da atividade econômica.

O país se mantém acima das mil mortes diárias há seis semanas, desde meados de junho. Para o filósofo Roberto Romano, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a pandemia realça a “tremenda ambivalência” humana. “Temos ao mesmo tempo gestos magnânimos, simpatias e heroísmo, mas também momentos de pequenez, egoísmo, auto satisfação com a maldade, o prazer em fazer o mal”, afirma. “Essa duplicidade depende muito das condições de comunicação, visualidade e proximidade do fato. Se um parente próximo estiver no Boeing que caiu, a reação é de consternação, tristeza e até de revolta. Quando o fato não está no campo visual, de percepção imediata, essa reação se torna cada vez mais tênue.”

No caso da pandemia, acredita Romano, a notícia das mil mortes é apenas um número: “Você não vê aquilo acontecendo, como os destroços de um Boeing, das Torres Gêmeas (atentado em Nova York, de 2001)”.

O cenário de indiferença pode sofrer um abalo quando o Brasil chegar aos 100 mil mortos, mas é incerto.

Fonte Brasil 247


https://www.facebook.com/antoniocavalcantefilho.cavalcante

terça-feira, 28 de julho de 2020

"BOLSONARO TEM AS CARACTERÍSTICAS DO ANTICRISTO", DIZ LEONARDO BOFF


Vivemos hoje no Brasil uma situação singular. É o abandono do povo pelo governo, que não está interessado na vida, mas no negócio. Mais no dinheiro do que na saúde. Chegará o momento em que esse país vai tremer. E ele não saberá onde se esconder. Porque quando o povo assume o poder no qual ele é o sujeito ele é capaz de fazer valer o primeiro parágrafo da Constituição e dizer: o poder sai de nós e tem que ser exercido em nosso nome e em defesa das nossas vidas.



Tutaméia

Por Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

“O país é governado por alguém que tem as características do Anticristo, um espírito inimigo da vida, inimigo de tudo que é bom”, diz o teólogo LEONARDO BOFF, escritor e professor emérito de ética, filosofia da religião e ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em entrevista ao TUTAMÉIA, ele diz não é mais possível tolerar que “em um país como um nosso, que tem uma população tão sofrida, se coloquem ainda mais cruzes sobre ela”.

Boff denuncia o ataque de Bolsonaro às populações indígenas, sua política antipovo e que prejudica as comunidades mais carentes, especialmente durante a pandemia. E afirma que está nascendo uma nova consciência na humanidade, que diz que o mundo e o Brasil, assim como estão, não podem continuar, porque é perverso demais.

Por isso, ele conclama as mulheres e os homens de bem: “Temos de nos indignar, não aceitar o que está aí, mas mais do que tudo temos que ter a coragem de resistir, de ir à rua. Não acreditar nas fake News, criar grupos de reflexão de articulação, sermos solidários para com todas aquelas famílias que perderam seus entres queridos, apoiar os médicos, enfermeiros que sacrificam suas vidas. Ter a coragem de alimentar essa dimensão de luz em nós e a coragem de ir à rua para destituir esse homem, porque esse é a maior pedra que caiu sobre a população brasileira. Temos que transformá-la na base de um novo tipo de Brasil, generoso, cordial, hospitaleiro e que celebra a beleza e a grandeza da vida”.

Na entrevista, o teólogo também comentou a recém divulgada Carta aos Brasileiros assinada por 152 bispos e bispos eméritos do país, como o arcebispo emérito de São Paulo, dom Claudio Hummes, o bispo emérito de Blumenau, dom Angélico Sandalo Bernardino, o bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM), dom Edson Taschetto Damian, o arcebispo de Belém (PA), dom Alberto Taveira Corrêa, o bispo prelado emérito do Xingu (PA), dom Erwin Krautler, o bispo auxiliar de Belo Horizonte (MG), dom Joaquim Giovani Mol, e o arcebispo de Manaus (AM) e ex-secretário-geral da CNBB dom Leonardi Ulrich (leia a íntegra ao final desta reportagem).

“Eles estão assumindo essa tradição profética da igreja em nome daquilo que é específico da tradição de Jesus, em nome da defesa da vida. Eles falam o dialeto religioso, mas é um documento político, que vê a vida na sua totalidade, o bem comum dos seres humanos. Falam em nome disso. A linguagem é dura, e citam o criminoso duas, três vezes: Jair Bolsonaro é um homem antivida”, diz Leonardo Boff ao TUTAMÉIA (clique no vídeo acima para ver a entrevista na íntegra e se inscreva no TUTAMÉIA TV).

O teólogo também comentou a campanha para que as Brigadas de Médicos de Cuba recebam o Prêmio Nobel da Paz: “Elas estão em sessenta países, salvando milhares de vidas. Enquanto estiveram no Brasil, em cinco anos fizeram mais de um milhão e cem mil consultas e atenderam a sessenta milhões de brasileiros. Mas houve um demente, inimigo da vida, que prefere a morte dos doentes do que a sua salvação, que os expulsou daqui. Mas eles estão pelo mundo inteiro, salvando vidas, arriscando as próprias vidas. Mais do que ninguém, as Brigadas de Saúde de Cuba merecem esse prêmio.

A seguir, alguns trechos da entrevista.

O BRASIL NA PANDEMIA

Vivo uma profunda indignação, sagrada indignação. Porque o desprezo, o ódio, o antivida está ganhando centralidade. O país está sem direção nenhuma e é governado por alguém que tem as características do Anticristo. A Escritura, quando fala do inimigo da vida, que usa o nome do Messias para atacar, mentir, enganar seu povo, [diz que] esse é o Anticristo. Mais do que uma pessoa, é um espírito inimigo da vida, inimigo de tudo que é bom. Estamos vivendo neste país uma situação que eu não aceito, me indigno, mas, por outro lado, me sinto impotente porque vejo que as instâncias que deviam e podiam atuar não atuam. São omissas. Se um dia esse presidente for levado ao Tribunal Penal Mundial por crimes contra a humanidade –como deve ser–, esses omissos devem ir junto, porque não defenderam seu povo, não defenderam a vida, entregaram o país à sua própria sorte.

Quero me associar a todos esses que lutam e resistem. Eu faço o que posso, todo escrevo um artigo, faço lives… Na minha idade avançada, não posso fazer mais do que isso, mas não posso tolerar que um país como um nosso, que tem uma população tão sofrida, que sobre ela se coloquem mais e mais cruzes.

Os omissos são duas instâncias: o Parlamento, especialmente Rodrigo Maia, que tem, mais de trinta pedidos de impeachment, e o Supremo Tribunal Federal, porque a Constituição não está aí para defender letra, ela foi feita parta expressar a vida de uma nação, defender o direito e a justiça para a população, e eles não o fazem. São omissos.

A centralidade para eles não é a vida, é um tipo de ordem que beneficia a eles e àqueles estratos das oligarquias que mantiveram o Bolsonaro, continuam o mantendo porque fazem muito dinheiro com as políticas neoliberais e antipovo que ele leva agora.

ATAQUE AOS INDÍGENAS

O maior crime que Bolsonaro fez foi negar aos indígenas água, remédios, insumos, tudo aquilo que podia salvar a vida deles, tudo isso foi negado por Bolsonaro. Ele fez um decreto de condenação aos indígenas. Repete aquilo que em 1808 Dom Juan Sexto fez: um decreto para fazer uma guerra de extermínio contra os krenak do Vale do Rio Doce. Bolsonaro tem essa concepção, de que os índios não são bem gente. Isso está revoltando a humanidade, e creio que deveria revoltar muito mais os legisladores, aqueles que têm poder de atuar, e não estão atuando.

AÇÃO DA IGREJA

Os 152 bispos que subscrevem essa carta, logo no início dizem que falam em nome da CNBB. É um momento em que a igreja não pode calar. Ela tem de sair, como saíram os bispos do centro-oeste, com Dom Pedro Casaldáliga e dom Tomás Balduíno, como o Grito da terra contra o Latifúndio. Eles estão assumindo essa tradição profética da igreja em nome daquilo que é específico da tradição de Jesus, em nome da defesa da vida.

Eles falam o dialeto religioso, mas é um documento político, que vê a vida na sua totalidade, o bem comum dos seres humanos. Falam em nome disso. A linguagem é dura, e citam o criminoso duas, três vezes: Jair Bolsonaro é um homem antivida. E é importante que o digam, e a população brasileira tem de se convencer de que nós estamos sendo vítimas de alguém que não ama o povo, que quer a sua destruição. Em discursos à nata mais reacionária dos Estados Unidos, Bolsonaro disse claramente: “Eu não tenho um projeto de país. Eu vim para desmontar tudo o que foi montado, e remontar o país”. Só que ele levou o país a três séculos atrás, e o remonta sobre as bases mais perversas, da escravidão, do genocídio, do ódio e do desprezo à vida.

VIRADA NA PANDEMIA, RESGATE DA HUMANIDADE

A pandemia tem uma dupla face. Ela é democrática, porque atinge todo mundo, ricos e pobres. Pega o planeta inteiro. Entretanto, ao mesmo tempo ela não é democrática: acentua gravemente as desigualdades porque as principais vítimas são aquelas que estão desguarnecidos, que não podem fazer o isolamento social, que não conseguem viver fora dos grupos, porque são pequenas casas onde vivem aglomerados. Essas são as principais vítimas.

Se imporia haver políticas de Estado para permitir que essas pessoas possam ser salvaguardadas. Um grande exemplo deu o bairro Paraisópolis, em São Paulo. Já que Dória, que quer ser candidato à presidência, um homem medíocre que abandonou a população, esse bairro se organizou em grupos. Criaram isolamento social, áreas arejas em que podem se defender, conseguiram insumos básicos, salvado mil vidas. A sociedade está se autodefendendo. Talvez a única alternativa para nos salvarmos é nós mesmos nos organizarmos.

Nós aqui temos um pequeno centro de defesa dos direitos humanos, que já persiste há quarenta anos, o nosso trabalho principal é recolher cestas básicas na cidade e levá-las às periferias. O mínimo que nós podemos fazer é levar alimento, levar álcool gel, levar os insumos básicos. Somos poucos, mas atendemos a mais de oitenta pessoas que vivem na rua e muitos outros que estão nas favelas e não conseguem sair.

Cada grupo que tem consciência humanitária deves e organizar, fazer alguma coisa pelo outro. Nós temos de resgatar a humanidade mínima, e resgatar a humanidade mínima é ver no outro um irmão, um companheiro com que eu compartilho o pão.

NOBEL DA PAZ

Uma das coisas mais extraordinárias que o socialismo cubano –e vamos insistir: tem de ser socialismo, porque o capitalismo jamais seria capaz disso—criou foram essas Brigadas de Saúde, que estão em sessenta países, que estão salvando milhares de vidas. Enquanto estiveram no Brasil, em cinco anos fizeram mais de um milhão e cem mil consultas e atenderam a sessenta milhões de brasileiros. Mas houve um demente, inimigo da vida, que prefere a morte dos doentes do que a sua salvação, que os expulsou daqui. Mas eles estão pelo mundo inteiro, salvando vidas, arriscando as próprias vidas.

Por isso, Adolfo Peres Esquivel e eu começamos uma campanha mundial para conceder o Prêmio Nobel da Paz a elas, a essas brigadas. Sua atuação é planetária, pega o que é mais importante no planeta, que é a vida, que eles estão salvando. Mais do que ninguém, as Brigadas de Saúde de Cuba merecem esse prêmio.

Já são milhares de pessoas que estão subscrevendo a proposta. Isso nos dá esperança. O papa João Paulo Segundo, depois que se deu conta da perversidade do capitalismo, disse: “Não podemos perder dois valores do socialismo, que são a solidariedade e o internacionalismo”. Ter a perspectiva não nacional, mas internacional: um planeta, uma casa comum, um destino comum, terra e humanidade. Esses dois valores do socialismo têm de ser preservados, e o papa dizia: “São valores da mensagem de Jesus”

Eles são socialistas, estão na linha do reino. Podem não ser católicos, cristãos, gente de igreja, mas estão no caminho de Jesus, que é salvar vidas para que todos tenham vida em abundância. Por isso merecem que os apoiemos, que vocês os apoiem, para que merecidamente ganhem esse Prêmio Nobel da Paz.

O POVO NA RUA

Vivemos hoje no Brasil uma situação singular. É o abandono do povo pelo governo, que não está interessado na vida, mas no negócio. Mais no dinheiro do que na saúde.  Mais de um milhão de subscritores enviaram queixa ao tribunal internacional de crimes contra a humanidade, contra esse homem que é inimigo da vida, aquele que vive não do trigo, mas do joio, e espalha joio para tentar afogar o trigo, que é vida. Que seja urgente o julgamento porque há uma dizimação da população brasileira.

Sonho que chegará o momento que o povo saia à rua. Que faça tremer esse país contra esse inimigo que está lá em cima, que não cuida do povo e de sua saúde e que entregou todo mundo à sua própria sorte. Isso não é digno de um povo e nós temos o direito. Repito Emiliano Zapata, o grande revolucionário mexicano: se o governo não faz justiça ao povo, o povo tem o direito de não dar paz a esse governo. Chegará o momento em que esse país vai tremer. E ele não saberá onde se esconder. Porque quando o povo assume o poder no qual ele é o sujeito ele é capaz de fazer valer o primeiro parágrafo da Constituição e dizer: o poder sai de nós e tem que ser exercido em nosso nome e em defesa das nossas vidas.


<iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/gOLH_nR0D0E" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>


Fonte Tutaméia

https://www.facebook.com/antoniocavalcantefilho.cavalcante


domingo, 26 de julho de 2020

A infernal máquina brasileira de lavar dinheiro


Como um esqueleto que chacoalha no armário, o caso Banestado volta à tona. Uma retomada das investigações pode deixar em maus lençóis os barões das finanças, próceres da Operação Lava Jato e figuras carimbadas do sistema político.






Por Pepe Escobar, no Asia Times |Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel

Duas décadas depois de um terremoto político, um potente tremor secundário que deveria sacudir o Brasil está sendo recebido com um silêncio estrondoso.

O que agora é chamado de “vazamentos do Banestado” e “CC5gate” é algo parecido com o antigo caso WikiLeaks: uma lista publicada pela primeira vez na íntegra, dando nomes e detalhando um dos maiores casos de corrupção e lavagem de dinheiro do mundo nas últimas três décadas.

Esse escândalo pode nos proporcionar o saudável exercício daquilo que Michel Foucault reconhecera como uma “arqueologia do saber”: sem entender esses vazamentos, é impossível colocar no devido contexto eventos que vão dos sofisticados ataques de Washington ao Brasil ― inicialmente via NSA [National Security Agency (Agência de Segurança Nacional norte-americana)], espionando o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff (2010-2014) ― até a operação “Lava Jato”, que pôs na cadeia Luis Inácio Lula da Silva, e abriu o caminho para a eleição do presidente neofascista Jair Bolsonaro.

O crédito pelo furo jornalístico desta trama de guerra híbrida orwelliana deve ser tributado, mais uma vez, à mídia independente. O pequeno site Duplo Expresso, liderado pelo jovem e ousado advogado internacional Romulus Maya, radicado em Berna, foi quem publicou a lista pela primeira vez.

Uma épica live de cinco horas reuniu os três principais protagonistas da denúncia do escândalo, no final dos anos 90, e que agora se dispõem a confrontá-lo novamente: o então governador do Estado do Paraná, Roberto Requião, o promotor federal Celso Tres e o agora superintendente aposentado da Polícia Federal, José Castilho Neto.

Anteriormente, em outra live, Maya e o antropólogo Piero Leirner, principal analista de guerra híbrida do Brasil, me informaram sobre as inúmeras complexidades políticas dos vazamentos, enquanto discutíamos a geopolítica no Sul Global.

As listas do CC5 estão aqui, aqui e aqui. Vejamos o que as torna tão especiais.

O mecanismo

Em 1969, o Banco Central do Brasil criou o que viria a ser conhecida como a “conta CC5”, para facilitar empresas e executivos estrangeiros na transferência legal de pequenos ativos para o exterior. Por muitos anos, o fluxo de caixa nessas contas não foi significativo. Então, nos anos 90, tudo mudou, com o surgimento de uma grande e complexa movida criminosa focada na lavagem de dinheiro [N. do T. preferiu-se aqui, com o termo “movida”, em parte fazer uma evocação ao bem conhecido movimento boêmio-cultural espanhol, como uma onda, uma agitação, mas também evocar a polissemia que o termo guarda no castelhano latino-americano].

A investigação original do Banestado começou em 1997. O promotor federal Celso Tres ficou surpreso ao descobrir que, de 1991 a 1996, o equivalente a nada menos que 124 bilhões de dólares havia sido transferido para o exterior. No final das contas, durante toda a existência dessa movida (de 1991 a 2002), o total escalaria para 219 bilhões de dólares ― situando o Banestado no cerne de um dos maiores esquemas de lavagem de dinheiro do mundo em todos os tempos.

O relatório do promotor Celso Tres deu origem a uma investigação federal, que partiu de Foz do Iguaçu ― estrategicamente situada na tríplice fronteira Brasil, Argentina e Paraguai ―, onde os bancos locais lavavam fundos vultosos através de suas contas CC5.

Eis como funcionava: os doleiros do mercado negro, em conluio com funcionários dos bancos e do governo, faziam uso uma vasta rede de contas bancárias, em nome de laranjas e de empresas fantasmas, para lavar recursos ilegais oriundos de corrupção pública, fraude tributária e crime organizado, em especial por meio do Banco do Estado do Paraná (Banestado) em Foz do Iguaçu. Daí chamar-se “caso Banestado”.

Até 2001, a investigação federal parecia não chegar a lugar algum, quando então o superintendente da Polícia Federal José Castilho constatou que a maioria das transferências estava, na verdade, caindo em contas da agência do Banestado em Nova York. Castilho foi a Nova York em janeiro de 2002 para acelerar o necessário rastreamento internacional dos fundos.

Através de uma ordem judicial, Castilho e sua equipe revisaram 137 contas do Banestado em Nova York, acompanhando a movimentação de 14,9 bilhões de dólares. Em alguns casos, os nomes dos beneficiários eram os mesmos de políticos brasileiros que atuavam no Congresso, ministros e até ex-presidentes.

Depois de um mês em Nova York, Castilho volta ao Brasil com um relatório de 400 páginas. Apesar das evidências esmagadoras, ele foi removido da investigação, suspensa então por, pelo menos, um ano. Quando o novo presidente Lula assume o governo no início de 2003, Castilho volta à ação.

Em abril de 2003, Castilho identificou uma conta particularmente interessante no banco Chase Manhattan, chamada “Tucano” ― apelido do PSDB, liderado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), no poder antes de Lula e que mantivera laços muito próximos às máquinas políticas do presidente norte-americano Bill Clinton e do primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Castilho foi fundamental na criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso Banestado. Mas, mais uma vez, essa Comissão não levou a lugar algum. Não houve sequer a votação de um relatório final. A maioria das empresas negociou acordos com a Receita Federal do Brasil e, assim, encerrou qualquer possibilidade de ação judicial no que respeita à sonegação de impostos.

O caso Banestado encontra a Lava Jato

Em essência, os dois maiores partidos políticos, o PSDB neoliberal, de FHC, e o Partido dos Trabalhadores, de Lula ― que jamais enfrentaram de fato as maquinações imperialistas e a classe rentista brasileira ― participaram ativamente para enterrar uma investigação aprofundada do caso.

Além disso, ao suceder FHC, Lula, de forma consciente ou talvez na intuição de preservar a governabilidade, tomou a decisão estratégica de não investigar a corrupção tucana, embalada por uma série de privatizações desonestas.

Os promotores de Nova York chegaram ao ponto de preparar uma lista especial do Banestado para Castilho, com o que realmente importava para o processo criminal: o circuito completo do esquema de lavagem de dinheiro, apresentando os fundos inicialmente remetidos de forma ilegal para fora do Brasil, por meio das contas CC5; sua passagem através das agências, em Nova York, dos bancos brasileiros envolvidos; até chegar nas contas e fundos fiduciários dos paraísos fiscais (por exemplo, Cayman, Jersey, Suíça); para só então retornar ao Brasil sob a forma ― plenamente lavada ― de “investimento estrangeiro”, quando então se prestariam ao uso real e gozo dos beneficiários finais, os verdadeiros donos da grana.

No entanto, o ministro da Justiça brasileiro, Marcio Thomaz Bastos, nomeado por Lula, bloqueou o avanço das investigações. Como nota metaforicamente o superintendente Castilho: “Isso me impediu de voltar ao Brasil com o cadáver do crime”.

Embora Castilho nunca tenha posto as mãos nesse documento crítico, pelo menos dois deputados brasileiros, dois senadores e dois promotores federais, que mais tarde ascenderiam à fama como “estrelas” da operação Lava Jato ― Vladimir Aras e Carlos Fernando dos Santos Lima, ― o teriam obtido. Por que e como o documento ― chamêmo-lo de “bolsa de defunto” ― nunca foi encontrado nos processos criminais no Brasil é ainda um mistério complementar a cobrir todo o enigma.

Enquanto isso, existiriam relatórios “não confirmados” (várias fontes se esquivam em registrar isso) de que esse documento pode ter sido usado para extorquir os envolvidos, majoritariamente bilionários, que figuram na lista.

O condimento extra, na esfera judicial, está no fato de que o juiz estadual acusado por alguns de enterrar o caso Banestado não era outro que não Sergio Moro, a figura autoassumida como o Elliot Ness dos trópicos, que na próxima década alcançaria a condição de superestrela, como o capo di tutti capi da Lava Jato e daí, por consequência, ministro da Justiça de Bolsonaro. Moro acabou renunciando e agora já está, de fato, fazendo campanha para concorrer à presidência em 2022.

E aqui chegamos à conexão tóxica Banestado-Lava Jato. Considerando especulações, sobre o suposto modus operandi de Moro na Lava Jato, de alterar nomes nos documentos com a finalidade de pôr Lula na cadeia, o desafio agora seria provar se Moro “vendia” não-condenações no caso Banestado. Ele dispunha de uma desculpa legal conveniente: sem o “corpo do crime” arrolado no processo criminal no Brasil, ninguém poderia ser considerado culpado.

À medida que mergulhamos nos detalhes excruciantes, o Banestado se parece cada vez mais com o fio de Ariadne que pode desvelar o começo da destruição da soberania do Brasil. Um conto cheio de lições a serem aprendidas por todo o Sul Global.

O rei do dólar paralelo

Naquela live épica, Castilho fez soar um alarme quando se referiu a 17 milhões de dólares que haviam transitado pela filial do Banestado em Nova York e depois, de todos os lugares do mundo possíveis, acabou sendo enviado para o Paquistão. Ele e sua equipe descobriram isso apenas alguns meses após o 11 de setembro. Enviei-lhe algumas perguntas sobre o assunto, e ele respondeu, por meio de Romulus Maya, que seus investigadores podem desenterrar tudo novamente, pois um relatório indicaria a origem desses fundos.

É a primeira vez que essas informações são divulgadas ― e suas ramificações podem ser explosivas. Estamos falando de fundos duvidosos, possivelmente de operações com drogas e armas, saindo da tríplice fronteira, que historicamente é um dos grandes nódulos de operações clandestinas da CIA e do Mossad.

O financiamento pode ter sido proporcionado pelo chamado rei do dólar paralelo, Dario Messer, via contas CC5. Não é segredo que os operadores do mercado paralelo na tríplice fronteira estão todos conectados ao tráfico de cocaína do Paraguai ― e também a evangélicos. Essa é a base do que Romulus Maya, Piero Leirner e eu já caracterizamos como o “Evangelistão da Cocaína”.

Messer é uma engrenagem indispensável na máquina de reciclagem associada ao tráfico de drogas. O dinheiro viaja para paraísos fiscais sob a proteção do imperialismo, é devidamente lavado, e ressuscita gloriosamente em Wall Street e no centro financeiro de Londres, com o bônus extra para os Estados Unidos de diminuir parte de seu déficit em conta corrente. Taí a deixa para entender a “exuberância irracional” de Wall Street.

O que realmente importa é a livre circulação de cocaína; escondida ― por que não? ― numa inusitada carga de soja ― o que, de quebra, garante a saúde do agronegócio. Essa é uma imagem duplicada da rota da heroína da CIA no Afeganistão, que eu detalhei em outro lugar.

Em termos políticos, Messer é, antes de mais nada, o elo perdido crucial da ligação com Moro. Até uma grande mídia como O Globo foi forçada a admitir, em novembro passado, que os negócios sombrios de Messer foram “monitorados” sem trégua por duas décadas, por diferentes agências de inteligência norte-emericanas, em Assunção e em Ciudad del Este, no Paraguai. Moro, por sua vez, é um trunfo para duas diferentes agências norte-americanas ― o FBI e a CIA ―, além do Departamento de Justiça.

Nessa trama complexa, Messer pode ser o coringa. Mas também existe um Falcão Maltês, e, como aquele imortalizado no filme clássico de John Huston [a partir da obra literária homônima de Dashiell Hammett], existe apenas um Falcão Maltês. Ele está atualmente em um cofre na Suíça.

Refiro-me aos documentos oficiais originais, apresentados pela gigante da construção civil Odebrecht à operação Lava Jato, que foram indiscutivelmente “manipulados”, “a princípio” pela própria empresa, mas também, “talvez”, em conluio com o então juiz Moro e a equipe de acusação liderada por Deltan Dallagnol.

E isso foi feito não apenas com o objetivo de incriminar Lula e as pessoas próximas a ele, mas também, estrategicamente, para excluir qualquer menção a indivíduos que não deviam, sob hipótese alguma, ser trazidos à luz… ou aos bancos dos tribunais. E, sim, você adivinhou se pensou no rei do dólar paralelo, ao que tudo indica, acolitado pelos Estados Unidos.

O primeiro impacto político sério que se seguiu à liberação dos vazamentos do caso Banestado é que os advogados de Lula, Cristiano e Valeska Zanin, finalmente, e de forma oficial, solicitaram às autoridades suíças a entrega dos originais.

O ex-governador Roberto Requião, aliás, foi o único político brasileiro a pedir publicamente a Lula, em fevereiro, que buscasse os documentos na Suíça. Não é surpresa que Requião seja agora a primeira figura pública no Brasil a pedir a Lula que torne ostensivo todo o seu conteúdo, tão logo o ex-presidente ponha as mãos nele.

A lista real, não adulterada, de pessoas envolvidas na corrupção da Odebrecht está repleta de grandes nomes ― incluindo a elite judiciária.

Confrontando as duas versões, os advogados de Lula podem, finalmente, ser capazes de demonstrar a fabricação de “evidências” que levaram à prisão de Lula e também, entre outros desdobramentos, ao exílio do ex-presidente do Equador Rafael Correa, à prisão de seu ex-vicepresidente Jorge Glas, a prisão do ex-presidente Ollanta Humala e sua esposa e, mais dramaticamente, ao suicídio do ex-presidente do Peru, Alan Garcia.

O Patriot Act brasileiro

A grande questão política agora não é descobrir o grande mestre manipulador que enterrou o escândalo do Banestado há duas décadas. Como detalhou o antropólogo Piero Leirner, o que importa é que a apuração das informações contidas no vazamento das contas CC5 do caso se concentre no maquinário de como a corrupta grande burguesia brasileira, em associação com políticos e agentes do Judiciário (nacionais e estrangeiros), se entronizou como classe rentista e, ainda assim, eternamente submissa e controlada pelos arquivos “secretos” do imperialismo.

O vazamento inédito da lista de contas CC5 do Banestado pode permitir o reconhecimento do sentido dos lances políticos por trás do fracasso recente de Lula. Trata-se de uma guerra de espectro total (“híbrida”), onde piscar não é uma opção. E o projeto geopolítico e geoeconômico de destruir a soberania do Brasil e transformá-la em uma subcolônia imperial está vencendo, sem dúvida.

O potencial explosivo desses vazamentos do Banestado e do CC5gate pode ser medido pela reação dos diversos limited hangouts [“mediadores coarctativos” ou “entregadores limitados” ou, numa velha terminologia sindical, “pelegos”]: um silêncio estrondoso, que abrange partidos de esquerda e meios alternativos supostamente progressistas [N. do T.: a começar pelo portal Brasil247, onde o site Duplo Expresso e a pessoa do seu coordenador são sistemática e impiedosamente desqualificados pelo seu suspeito diretor, o jornalista Leonardo Attuch, a quem Paulo Henrique Amorim identificara como um prestador de serviços jornalísticos do banqueiro Daniel Dantas]. Para a grande mídia, por seu turno, para quem o ex-juiz Moro é uma vaca sagrada, um vazamento como esse é considerado, na melhor das hipóteses, uma “história antiga”, “fake news” ou até mesmo não mais que uma “farsa”.

Lula está diante de uma decisão fatídica. Com acesso a nomes até agora mantidos nas sombras pela Lava Jato, ele pode ser capaz de detonar uma bomba de nêutrons e resetar todo o jogo político, expondo um furúnculo de ministros do Supremo ligados à Lava Jato, promotores federais, promotores estaduais, jornalistas e até mesmo generais que receberam fundos da Odebrecht no exterior. Sem falar de trazer para a berlinda o rei do dólar paralelo, Dario Messer, quem, de fato, controla o destino de Moro. Isso significa, em última instância, apontar um dedo diretamente para o estado profundo dos Estados Unidos. Não vai ser uma decisão fácil de tomar.

Agora está claro que os credores do Estado brasileiro eram, originalmente, devedores. Cruzando as contas, seria possível fechar o círculo contábil do lendário “desequilíbrio fiscal” do Brasil ― exatamente no momento em que essa praga é embandeirada, mais uma vez, com a intenção de dizimar os ativos do precarizado Estado brasileiro. O ministro das Finanças, Paulo Guedes, neopinochetista e líder de torcida de Milton Friedman, já avisou que vai continuar vendendo empresas estatais como se não houvesse amanhã.

O plano B de Lula seria fechar um tipo de acordo que enterraria todo o dossiê ― exatamente como a investigação original do Banestado foi enterrada há duas décadas ― na tentativa de preservar a liderança do Partido dos Trabalhadores como uma oposição domesticada, sem tocar naquilo que se tornou o essencial na questão: como e por que Guedes está vendendo o Brasil.

Essa parece ser a opção preferida de Fernando Haddad, que perdeu a eleição presidencial para Bolsonaro em 2018 e é uma espécie de versão brasileira de Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile. Ele é um neoliberal envergonhado, que sacrificaria tudo para ter mais uma chance de ascender ao poder, possivelmente em 2026.

Se o Plano B acontecer, ele pode vir a galvanizar a ira dos sindicatos e movimentos sociais ― a classe trabalhadora brasileira de carne e osso, que está às portas de ser dizimada pelo neoliberalismo anabolizado e pelo conluio tóxico da versão brasileira, inspirada nos EUA, do Patriot Act, com esquemas militares que lucram com o Evangelistão da Cocaína.

E tudo isso depois que Washington ― com sucesso ― quase destruiu a campeã nacional Petrobras, um dos alvos iniciais da espionagem da NSA. Zanin, advogado de Lula, também acrescenta ― e talvez já seja tarde demais ― que a “cooperação informal” entre Washington e a operação Lava Jato, nos termos do Decreto 3.810/02, era, na realidade, ilegal.

O que Lula vai fazer?

No pé em que está a apuração das informações a partir do vazamento do caso Banestado, uma primeira lista VIP do Banestado foi elaborada. Ela inclui o atual presidente do Superior Tribunal Eleitoral e ministro do Supremo, Luis Roberto Barroso, banqueiros, magnatas da mídia e industriais. O promotor da operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, por sua vez, parece ser muito próximo da corte judiciária neoliberal instalada no STF.

A lista VIP pode ser lida como um roteiro das práticas de lavagem de dinheiro dos brasileiros do 0,01% ― estimados em aproximadamente 20.000 famílias detentoras da dívida interna brasileira de quase um trilhão de dólares. Uma grande parte desses fundos foi reciclada para voltar ao Brasil como “investimento estrangeiro” através do esquema CC5 na década de 1990. E foi exatamente assim que a dívida interna do Brasil explodiu.

Ainda assim, ninguém sabe, em detalhes, onde a torrente de dinheiro sujo, lavada pelo Banestado, realmente acabou chegando. A “bolsa do defunto” nunca foi formalmente reconhecida como tendo sido trazida de volta de Nova York, e nunca entrou em nenhum processo criminal. No entanto, o crime de lavagem de dinheiro pode ser considerado como continuado ― e, assim, sua prescrição não seria aplicável. Portanto, alguém ou alguns, poderiam ir para a cadeia. Parece que, para breve, não vai ser o caso.

Enquanto isso, patrocinado pelo Estado Profundo dos Estados Unidos, pelas finanças transnacionais e pelos operadores das elites locais ― alguns de farda, outros de toga ― o golpe de guerra híbrida em câmera lenta contra o Brasil continua se espraiando, dia após dia, aproximando-se do domínio de espectro total.

O que nos leva à questão-chave final: o que Lula vai fazer a respeito?

Fonte Outra Palavras


EMA ANTIFASCISTA SOFRE AMEAÇA E ATENTADO APÓS BICAR BOLSONARO

😂😂😂


https://www.facebook.com/antoniocavalcantefilho.cavalcante


sexta-feira, 17 de julho de 2020

GOVERNO BOLSONARO É GENOCIDA E DEVE SER ASSIM CHAMADO


O Ministro do STF Gilmar Mendes não usou a palavra genocídio a toa. O governo Bolsonaro é genocida, e deve ser tratado e denunciado como tal por todos aqueles que verdadeiramente defendem o direito à vida e a democracia. 




Por Tamires Sampaio, especial para Ponte

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sempre procurou, através de símbolos e do discurso, promover e provocar a violência e a morte. O desmonte dos direitos trabalhistas e da previdência, os ataques aos estudantes e trabalhadores da educação, o sucateamento do SUS e das políticas sociais já eram marca do governo federal desde o início da gestão. O ódio à população negra e indígena, as mulheres e as LGBTQIA+ também são marcas de seu governo. 

A pandemia do coronavírus atinge o Brasil desde março deste ano e o descaso com que Bolsonaro trata o vírus faz com que este avance e hoje seja o responsável pela infecção de mais de 1,9 milhões de casos confirmados e mais de 75 mil mortes. 

Dados que poderiam ser bem menores caso Bolsonaro tivesse lidado com responsabilidade e compromisso com a vida, ao invés de agir como um verdadeiro catalisador da Covid-19 ao incentivar a abertura de comércios, não garantir políticas efetivas de combate a desigualdade, defender o desmonte nos direitos trabalhistas, ao responder “E daí?”, quando perguntado sobre as dezenas de milhares de brasileiros mortos, ao sair em meio à multidão sem máscara e ao manter o país semanas sem Ministro da Saúde diante da maior crise sanitária da história recente.


Com essa gestão que está levando à morte milhares de brasileiros todos os dias, as acusações de genocídio estão ganhando cada dia mais força. Esta semana, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes disse que o Exército brasileiro estaria sendo cúmplice do genocídio que Bolsonaro está cometendo no Brasil. A partir dessa declaração, muitos debates sobre isso aconteceram. Mas, afinal, Bolsonaro cometeu crime de genocídio de acordo com a legislação brasileira sobre o assunto? 

De acordo com a lei 2.889/56 comete o crime de genocídio: “Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:

a) matar membros do grupo;

b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; 

c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial;

d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;

e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo”

Na semana passada, Bolsonaro vetou o socorro aos povos indígenas e quilombolas impedindo que o governo garanta: acesso a água potável ; distribuição de cestas básicas e materiais de higiene para desinfecção das aldeias e quilombos; a oferta emergencial de leitos hospitalares e de terapia intensiva; e se desobrigue de comprar ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea para garantir atendimento aos indígenas e quilombolas.

Ao vetar (sim, eu disse vetar!) o socorro aos povos indígenas e quilombolas ele se enquadra na lei sobre genocídio, pois o veto caracteriza o que está na alínea “c” do dispositivo: “submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial.”

Todo mundo sabe que o governo Bolsonaro é um governo de morte. A Necropolítica está presente nas ações, omissões, nos discursos e nos símbolos que ele insiste em propagar.

Mas a “intenção de matar”, no Direito brasileiro e internacional, necessita de prova material. E o veto que nega o socorro essencial para salvar as vidas dos povos indígenas e quilombolas brasileiros caracteriza uma prova material de que o governo Bolsonaro está cometendo crime de genocídio.

O Ministro do STF Gilmar Mendes não usou a palavra genocídio a toa. O governo Bolsonaro é genocida, e deve ser tratado e denunciado como tal por todos aqueles que verdadeiramente defendem o direito à vida e a democracia.

Tamires Gomes Sampaio é advogada e mestra em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Militante da Coordenação Nacional de Entidades Negras

Fonte  A Ponte

domingo, 12 de julho de 2020

POR QUE APROXIMA-SE UMA ONDA DE FOME NO BRASIL


Pandemia não é única responsável. Relatório da Oxfam aponta: “austeridade” aprofundou desigualdades e agricultura camponesa foi sabotada pelo governo. Corporações e agronegócio ficaram livres para ditar os preços dos alimentos…




Outras Palavras 

Por Maister F. da Silva, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores e membro do FRONT – Instituto de Estudos Contemporâneos.

Relatório lançado ontem pela Oxfam confirma o que pesquisadores, movimentos sociais e ativistas contra a fome alertavam mesmo antes do início da pandemia do coronavírus, a crise alimentar já era uma realidade no mundo e, especialmente no Brasil, agravada pelas políticas de austeridade, falta de incentivo para a produção de alimentos e ausência de políticas que contribuam para frear a especulação do mercado com o preço dos alimentos. Segundo o relatório, o Brasil está classificado como “epicentro emergente da fome extrema”, juntamente com Índia e África do Sul.

Orelatório denuncia que mesmo antes da pandemia já era evidente a falência do sistema alimentar globalizado, centrado na produção de commodities para exportação, dependente de insumos químicos e agrotóxicos, altamente concentrador de riqueza e que aumenta cotidianamente a insegurança alimentar e a pobreza generalizada. Poderosos comerciantes de produtos agrícolas, empresas de alimentos e bebidas e supermercados que dominam o setor de alimentação conseguem ditar o preço e os termos do comércio de alimentos. Seu foco em reduzir custos e maximizar lucros submete produtores e trabalhadores a salários de pobreza e os forçam a arcar com a maior parte dos riscos associados à produção de alimentos. Em tempos de pandemia, podemos ver o contrário, que a falta de uma política de controle de preços por parte do estado permitiu que esses atores especulem com preço dos alimentos, o que resultou em aumentos consideráveis dos produtos alimentícios.

A Oxfam afirma também que o Brasil vinha em um combate acelerado à fome e a insegurança alimentar e, em 2014, estava em vias de vencer esta batalha, graças a investimentos governamentais em benefício de pequenos produtores rurais e a um pacote de políticas que incluíram a criação de um Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), desenvolvido em parceria com a sociedade civil. Todavia, desde 2015 a situação vem se deteriorando, a crise econômica e as políticas de austeridade, cortes radicais nos orçamentos para agricultura familiar e proteção social, causaram um efeito cascata que acentuou as taxas de pobreza, desemprego e fome.

Segundoo relatório o Brasil tem adotado dois pesos e duas medidas quando trata-se de salvaguardar os atingidos pela crise: no final de junho, o governo federal distribuiu apenas 10% da ajuda financeira prometida a trabalhadores e empresas, via Programa de Apoio ao Emprego de Emergência (PESE), com grandes empresas obtendo mais benefícios do governo do que trabalhadores ou micro e pequenas empresas. Da mesma forma, apenas 47,9% dos fundos destinados à assistência de emergência a pessoas vulneráveis foram distribuídos no início de julho.


Fonte Outras Palavras


VIVO EM UM PAÍS EM QUE LUTAR PELA EDUCAÇÃO É COISA DE COMUNISTA E DEFENDER MILICIANO É PATRIOTISMO.




https://www.facebook.com/antoniocavalcantefilho.cavalcante