segunda-feira, 18 de junho de 2018

QUEM ESTÁ NO COMANDO


 Se arrependimento matasse, certamente eu já estaria morto desde os primeiros dias do mandato do Pedro Taques, pois confesso mais uma vez a minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa, por ser mais um que se deixou enganar pelas promessas do ex-procurador.



RD News


“A linguagem política destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como para dar aparência consistente ao puro vento”. (George Orwell)

Por Antonio Cavalcante Filho


Um governador de um só mandato, que trocou mais secretários que todos governadores nos últimos 40 anos; onde só ele teve mais assessores de primeiro escalão presos, ou respondendo a processos por maus feitos, do que os governos do Bezerra, Jaime, Blairo e Silval juntos; que fez a gestão mais medíocre e decepcionante das últimas 4 décadas, e, mesmo assim, propaga aos quatro ventos ser ele o “campeão”, o cara que mais fez por Mato Grosso, é de fazer qualquer um corar de vergonha.

É evidente que esse discurso palanqueiro de Pedro Taques não é para ser levado ao pé da letra, é apenas um jogo de máscara, “para fazer com que a mentira soe como verdade”. Assim, como diria Orwell, “para dar aparência consistente ao puro vento”. Às vezes, Pedro nos leva a pensar que o golpista Michel Temer, o mais rejeitado da história, é fichinha em matéria de cinismo.

Taques, oriundo das fileiras do Ministério Público, se fez político a partir da prisão do comendador Arcanjo. Na época, dizia que, como procurador tinha eliminado o braço executor das organizações criminosas (João Arcanjo), mas havia sobrado o braço político. Nisso, pediu exoneração do MPF, entrou na “carreira” política, para, segundo ele, eliminar o braço político do crime organizado.

Essa foi sua retórica para enganar a distinta plateia, posando como uma “novidade” e adubar uma carreira que começou no Senado, numa eleição que se valeu de uma ata adulterada, que até hoje não foi julgada pelo lentíssimo Tribunal Eleitoral de meu Estado.

Mas, onde está, ou quem é o braço político do crime organizado do qual tanto falava o ex-procurador? Seria os 33 deputados conhecidos, por aqui, como caititus, que o ex-presidente da Assembleia Legislativa, José Riva, delatou como receptadores de mensalinhos de aproximadamente R$ 30 mil para atender aos interesses do Executivo?

O multiprocessado Silval Barbosa também confirmou a existência dessa “mesada”, inclusive o seu ex-chefe de gabinete, Silvio Corrêa, apresentou vídeos mostrando a entrega da “merenda” mensal ao que mais parece uma manada daqueles porcos-do-mato sevados no coxo da politicalha estadual.

Mas volto à pergunta: onde está o braço político do crime organizado que Pedro Taques alardeava que era preciso eliminar? Trata-se apenas de uma pessoa ou de um bando? A vara de caititus, nutridos no parlamento estadual com o dinheiro público, é parte do braço político dessa organização?

Já eleito, a primeira iniciativa do atual governador foi inchar a folha de pagamento com a nomeação de servidores da área policial. Diz-se que foram muitos. Taques, em contato como seu correligionário Marconi Perilo, do PSDB de Goiás, decidiram fazer política de segurança pública combinada, fundaram até um tal de Fórum de Governadores do Brasil Central. De prático, só mais despesas com viagens, diárias e hospedagem.

O procurador da República que se fez político para governar Mato Grosso conduziu o governo a um descrédito sem precedentes, a começar na área policial. Primeiro nomeou delegados de polícia nos mais diversos setores da gestão pública, como se esses profissionais tivessem o perfil adequado para a missão arranjada.

O que vimos em seguida foi o tão mau-falado esquema de interceptações telefônicas criminosas. Por essa razão, diversos inquéritos foram instaurados, oficiais da Polícia Militar foram presos e afastados de suas funções, e até mesmo um Desembargador de Justiça que presidia o processo sobre esses crimes teria sido ameaçado pelos meliantes (até agora sem mandantes).

Recentemente, as principais cidades de Mato Grosso passaram a conviver com uma nova estrutura de segurança informal, ágil e com resultados surpreendentes: são as facções criminosas impondo regras de comportamento nas periferias. Assim, uma frase na entrada de determinado bairro com a “proibição de roubar” é mais eficaz que as rondas da desacreditada (por seus próprios méritos) força policial.

Lembremos que o Comando Vermelho chegou a explodir o muro da Secretaria de Segurança Pública, e até hoje as investigações não conseguiram identificar a autoria. Esse é o mais bem-acabado exemplo de que o governo de Pedro Taques destruiu a imagem e a credibilidade das forças policiais mato-grossenses, arrastando-as para o centro da sua fracassada gestão.

Os quatro anos do mandato do Pedro já se foram. Daí, volto a pergunta novamente, o braço político da organização criminosa já foi eliminado? Se foi, quem era?

Nota-se nas mídias policiais que não há mais notícia de prisão de figurões, de grandes traficantes, homicidas ou ladrões de bancos. Nossas forças policiais se contentam em invadir bailes funks, dar um “sacode” na gurizada que está com narguilé e anunciar isso nos programas policiais.

Outro dia, procurando saber por que o “giroflex” das viaturas policiais, aquelas luzes vermelhas intermitentes, ficam ligadas o tempo todo, me disseram que era para dar a “sensação de segurança”. Ou seja, é mais um engana-trouxa, um colírio que cega ainda mais os bobós cheira-cheira que um dia acreditaram num justiceiro para administrar Mato Grosso.

Se arrependimento matasse, certamente eu já estaria morto desde os primeiros dias do mandato do Pedro Taques, pois confesso mais uma vez a minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa, por ser mais um que se deixou enganar pelas promessas do ex-procurador.

Antonio Cavalcante Filho, o Ceará, é sindicalista e escreve neste espaço às sextas-feiras - E-mail: antoniocavalcantefilho@outlook.com


O MERCADO E SEUS MERCADORES


O mercado é o conglomerado: do donos dos bancos, os grandes empresários, os rentistas, os latifundiários e os especuladores. Essa turma (do conglomerado financeiro-empresarial) representa o 1% da população que domina e submete os outros 99%, sendo que uma pequena parcela destes últimos se beneficia razoavelmente desse estado de coisas. 




Por Robson Sávio Reis Souza
Doutor em Ciências Sociais e professor universitário

1. Quem prendeu e mantém Lula preso foi o mercado.

1.1. Lula, apesar de não ter governado contra o mercado, se tornou uma ameaça depois que ficou escancarado que o mercado é o grande beneficiário do golpe e, nesse contexto, resolveu mudar seu discurso de "Lulinha paz e amor", prometendo enfrentar mazelas estruturais caso seja eleito novamente.

1.2. A mídia empresarial está (como sempre esteve) a serviço do mercado.

2. A justiça, inclusive e principalmente o Supremo, está a serviço do mercado.

2.1. Lula foi expurgado do pleito num processo judicial totalmente político e persecutório e continuará como preso politico porque é o candidato com maior intenção de voto e isso não agrada o mercado.

2.2. Fica claro que há indevida e ilegal interferência no processo eleitoral.

3. Assim, o STF, na condição de parceira do mercado, deve manter Lula preso; ou o TSE expurgá-lo das eleições.

4. Como Lula será impedido de concorrer às eleições, porque o mercado assim determinou, a democracia, a Constituição e o Estado estão submetidos aos interesses e determinações do mercado.

5. No Brasil contemporâneo, o mercado está acima da nação e dos cidadãos, que devem servi-lo. Os golpistas são prepostos do mercado.

6. Os três poderes se amalgamaram numa uma única organização (criminosa) para a pilhagem do Estado, a favorecer os interesses do mercado.

7. As regras eleitorais também deverão servir aos interesses do mercado. Por isso, qualquer candidato que ameaçar os interesses do mercado serão tratados com terrorismo pela mídia
e, se for o caso, a justiça e/ou as Forças Armadas entrarão em cena.

7.1. Não interessa ao mercado os interesses populares.

8. Para garantir esse estado perverso e pervertido, a serviço do mercado, o Brasil está duplamente tutelado:

(a) pela "santíssima trindade" penal-judicial-policial (polícias, MP, judiciário) e

(b) pelas Forças Armadas, cada vez mais protagonistas na política.

9. Eleições, se ocorrerem, poderão se transformar numa farsa, a manterem aparência democrática.

Agora, quem é essa divindade suprema chamada mercado?

O mercado é o conglomerado: do donos dos bancos, os grandes empresários, os rentistas, os latifundiários e os especuladores. Essa turma (do conglomerado financeiro-empresarial) representa o 1% da população que domina e submete os outros 99%, sendo que uma pequena parcela destes últimos se beneficia razoavelmente desse estado de coisas.

Os três poderes da República estão a serviço desse conglomerado; dessa "economia que mata", como diz o Papa Francisco.

Por isso, só a união das forças progressistas com os trabalhadores terá a potência para o enfrentamento da nova divindade que reina no Brasil: o mercado (inclusive com o apoio de muitas lideranças e elites religiosas).

Fonte Brasil 247

terça-feira, 12 de junho de 2018

OS TENTÁCULOS DA OTAN NA AMÉRICA DO SUL


A história das relações dos EUA com a América Latina é marcada por tentativas de neutralizar as iniciativas autonomistas dos países da região e, no tocante à Argentina e ao Brasil, os dois maiores países da América do Sul, pela busca por alianças de caráter político e militar, de forma a neutralizar sua possibilidade de liderança regional. 

 O recente ingresso da Colômbia na Otan aumenta a presença bélica imperialista no continente



Por Rita Coitinho,
Dra. em Geografia e membro do Conselho Consultivo do Cebrapaz

Quando nos referimos aos EUA como “única superpotência”, tem-se em mente o entendimento expresso por Antônio Gramsci, para quem o conceito refere-se à capacidade de um Estado de “imprimir à atividade estatal uma direção autônoma, que influa e repercuta sobre outros Estados”.

Conforme o autor italiano, “a medida decisiva para estabelecer o que se deve entender por superpotência é a guerra”. Assim, ainda que a Europa disponha de grande poder econômico e que a China venha despontando no cenário mundial como a economia mais dinâmica e como dona da maior capacidade de investimento, é fato que, ainda, somente os EUA têm capacidade militar para interferir fora de suas fronteiras com grande vantagem sobre qualquer adversário. 


É fato, por outro lado, que o crescente reequipamento da Rússia e a ampliação das capacidades bélicas da China têm diminuído a vantagem absoluta dos Estados Unidos. Mas ainda estamos longe de uma situação em que se possa afirmar que o gigante norte-americano perdeu sua proeminência militar. Para além de sua capacidade militar individual, os EUA controlam a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e, a partir dessa “aliança militar”, nascida ainda na Guerra Fria, dispõem de um largo contingente de aliados que lhe ampliam exponencialmente a capacidade de ameaçar o mundo.

Nas décadas de 1990 e 2000 os Estados Unidos pareciam desinteressar-se dos fatos políticos latino-americanos para dedicar-se a disputar a proeminência política, econômica e militar sobre o Oriente Médio e sobre a eurásia, buscando realizar um cerco à Rússia, de modo a neutralizar seu poder regional. Contudo, já desde o final do governo de Bush Jr., com a apresentação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas, felizmente derrotada em 2003), o Plano Colômbia de “combate ao narcotráfico”, o apoio à “guerra às drogas” no México e, particularmente nos últimos anos do segundo governo Obama, quando ampliou-se a ofensiva estadunidense sobre os rumos políticos da Venezuela, as atenções do Departamento de Estado dos EUA para a região foram ampliadas.


A reativação do Comando Militar Sul foi o sinal de alerta para os povos da região, tendo ocorrido logo após o anúncio, pelo Brasil, da descoberta do Pré-Sal. Seguiram-se a esse fato inúmeras denúncias dos governos da Bolívia, do Equador e da Venezuela de interferências das embaixadas dos EUA em sua política interna. O retorno de grupos políticos aliados de Washington ao poder, seja por eleições (Argentina, como Macri), seja por golpes de Estado (Brasil, Paraguai, Honduras) ou por cooptação (Lênin Moreno, no Equador), trouxe de volta à região a antiga agenda de militarização, que na verdade nunca foi enterrada completamente, basta observar o caso colombiano e a permanência de bases militares espalhadas por toda a região.


Mas o fato mais perigoso talvez seja a entrada da Otan no continente. A Colômbia anunciou no mês de maio estar em processo de adesão ao tratado, porém pouco se fala do caso argentino. Este país tem o status de “grande aliado extra-Otan” desde 1997, quando Menem estava no governo. Conforme informa a especialista argentina em geopolítica, Elsa Bruzzone, o país nunca deixou, desde então, de ser formalmente aliado na Otan. Ainda que nos governos de Néstor e Cristina Kirchner esse “status” nunca tenha sido usado para nada, com a chegada de Macri à Casa Rosada o país platino retomou a agenda de cooperação militar com os EUA, o que inclui exercícios militares conjuntos, como os que ocorreram este ano, e a compra de armamento ostensivo.


De acordo com Bruzzone, o status de aliado especial extra-Otan permite acesso facilitado a armamento ofensivo e requer, como contrapartida, além da relação “confiável” com os EUA, possuir uma força especial de deslocamento rápido que, no caso da Argentina, são os paraquedistas que se concentram em Córdoba. Quando Bill Clinton bombardeou Kosovo, sob o guarda-chuva da Otan, os militares argentinos foram embarcados para a Europa, onde se colocaram sob as ordens de um coronel italiano e integraram-se às forças da organização. Agora, com a adesão próxima da Colômbia ao tratado, serão dois países sul-americanos a ele vinculados, o que coloca a região, definitivamente, na rota das guerras de agressão.


Para além do “título” de aliado extra-Otan, Macri firmou acordos militares com os EUA, sob o discurso já conhecido de “guerra ao narcotráfico e ao tráfico de drogas”, no âmbito da ICP (Iniciativa contra a Proliferação). Os acordos preveem manobras militares conjuntas e, o que é ainda mais grave para a soberania argentina e para toda a região, a instalação de bases militares estadunidenses nas localidades de Ushuaia, Misiones e Jujuy.


A história das relações dos EUA com a América Latina é marcada por tentativas de neutralizar as iniciativas autonomistas dos países da região e, no tocante à Argentina e ao Brasil, os dois maiores países da América do Sul, pela busca por alianças de caráter político e militar, de forma a neutralizar sua possibilidade de liderança regional. Sob Trump, com sua declarada agenda protecionista/belicista, ao menos pode-se dizer que as coisas ganham contornos mais claros. As alianças apresentam caráter nitidamente militarista e, no tocante à economia, não há tratativas de cooperação, mas de atendimento direto dos interesses estadunidenses: venda de terras e riquezas naturais por preços irrisórios, abertura comercial irrestrita nas áreas de interesse dos EUA e cessão de bases militares. O fortalecimento da posição da Otan na região representa a escalada do processo de submissão do ponto de vista militar. E é a porta de entrada da dominação irrestrita da potência sob os recursos naturais da região e sobre os destinos dos seus povos



Fonte Portal Vermelho

https://www.facebook.com/antoniocavalcantefilho.cavalcante

 

domingo, 10 de junho de 2018

GOLPE PÔS CONGRESSO, JUDICIÁRIO E MÍDIA NA LAMA, MOSTRA DATA FOLHA


O País tem um Supremo Tribunal Federal que foi conivente com um golpe contra a democracia, permitindo que uma acusação estapafúrdia como a de pedaladas fiscais tivesse sustentação jurídica para um impeachment. 




Por Aquiles Lins

A pesquisa Datafolha divulgada neste domingo, 10, traz várias provas do fracasso político, institucional e eleitoral que foi o impeachment da presidente Dilma Rousseff sem comprovação de crime de responsabilidade, isto é, um golpe.

O ex-presidente Lula continua imbatível, liderando com 30% e vencendo folgado qualquer adversário no segundo turno, enquanto Michel Temer é reprovado por 82% da população, na maior rejeição da história.

No entanto, talvez a informação mais ilustrativa diz respeito à confiança dos brasileiros e brasileiras nas três instituições que lideraram o golpe de 2016: o Congresso Nacional, o Judiciário e a mídia.

O Poder Legislativo federal não é uma instituição confiável para 67% dos brasileiros. Inflam este percentual a hipocrisia de deputados que votaram a favor da retirada de uma presidente honesta.

Como Raquel Muniz (PSD-MG), cujo marido e então prefeito de Montes Claros foi preso por desvios na Saúde, ou Caio Nárcio (PSDB-MG), cuja lição de que "honestidade era obrigação" ele havia aprendido com o pai, Nárcio Rodrigues da Silveira, preso depois por desvios em obras durante o governo de Antonio Anastasia (PSDB). Há ao menos uma dezena de outros casos de deputados, e também de senadores, como o célebre Romero Jucá (MDB-RR), que defendeu o "grande acordo nacional, com o Supremo com tudo", que dão consistência à desconfiança no Congresso.

Sobre o outro Poder, o Judiciário, a pesquisa Datafolha mostrou que 82% dos brasileiros confiam pouco ou absolutamente nada. Também não é para menos. O País tem um Supremo Tribunal Federal que foi conivente com um golpe contra a democracia, permitindo que uma acusação estapafúrdia como a de pedaladas fiscais tivesse sustentação jurídica para um impeachment.

Antes disso, o STF atuou politicamente inúmeras vezes contra o governo Dilma, na ação e na omissão. Na ação, quando Gilmar Mendes vetou a nomeação de Lula como ministro da Casa Civil em 2016, aumentando a instabilidade necessária para o golpe. E na omissão, como quando o juiz Sérgio Moro divulgou ilegalmente a conversa entre Lula e Dilma (na ocasião Lula, acertadamente, disse que o País tinha uma Suprema Corte 'totalmente acovardada') e ficou por isso mesmo, ou quando o ex-ministro Teori Zavascki manteve Eduardo Cunha na presidência da Câmara até cumprida sua missão golpista. Ou ainda na omissão, pelo STF não julgar até hoje o mérito do impeachment de Dilma.

O outro pilar de sustentação do golpe que está na lama é a mídia. Para 82%, o oligopólio midiático integrado por Globo, Abril, Folha e Estadão é de pouca ou nenhuma confiança. Junto com outros veículos satélites, eles difundiram a narrativa inicial do impeachment contra Dilma, logo após o resultado das eleições de 2014 – quem não se lembra do editorial de Merval Pereira?. A atuação ostensiva da TV Globo em favor dos protestos dos manifestoches, que foram às ruas do País com a camisa da CBF, e descobriram que, ao contrário da campanha da Fiesp, eles é que estão pagando o pato do desemprego, da estagnação e do retrocesso do Brasil pós-golpe.

A pesquisa Datafolha mostra de forma cristalina que o povo tem consciência crítica do que aconteceu no Brasil, bem como sabe e condena a irresponsabilidade de se subordinar instituições a favor de uma elite contrária aos interesses nacionais


A QUEM SERVIU O GOLPE?


O governador de Mato Grosso, Pedro Taques, “apressadinho”, mergulhou de cabeça nas aguas turvas e pútrida do pantanal golpista. Com isso, suicidou-se politicamente, enforcado nas árvores desfolhadas de um serrado em chamas. 




Por Antonio Cavalcante Filho 


O mundo todo e, infelizmente, o nosso país vivem uma das piores crises da história. Não se trata aqui de “crise moral”, “crise de patriotismo” ou outras dessas baboseiras hipócritas e delirantes de falsos moralistas.

A crise no mundo a que me refiro é a do capitalismo, que, após séculos de barbárie, não consegue oferecer respostas decentes aos graves problemas acumulados nas áreas da educação, saúde, habitação, reforma agrária, segurança, saneamento, emprego, distribuição de renda, justiça social, transporte, meio ambiente e tantas outras necessidades que a humanidade, em especial nossos irmãos empobrecidos e a Mãe Terra anseiam e precisam.

É contra o afastamento de Dilma Roussef, sem crime de responsabilidade, e a prisão do Lula, sem crimes comprovados que enfatizo neste texto a seguinte pergunta: foi para isso que deram o golpe?

Em 2016, o imperialismo capitalista, aliando-se novamente às elites escravocratas do Brasil (latifundiários, banqueiros, especuladores, oligarquia empresarial, mídia corporativa burguesa, setores do judiciário, MP, PF e suas marionetes analfacoxas), nos impôs mais um golpe, dessa vez apelidado de “impeachment”, tão cínico e covarde quanto o de 1964, batizado por eles de “revolução”.

O golpe contra a nossa democracia foi dado, “coincidentemente” no momento em que o governo Dilma se alinhava aos chamados BRICs (Brasil, África do Sul, Índia, China e Rússia), criando uma moeda própria para suas transações, nos desvencilhando dos tentáculos monstruosos da política econômica imperialista do Tio Sam.

“Curiosamente”, dois desses países sofreram no mesmo período um processo de “impeachment” de seus dirigentes: África do Sul e Brasil. Mera coincidência?

É fato que o Brasil, após um breve período de estabilidade democrática e de crescimento econômico no governo Lula/Dilma, vive hoje um caos por completo. Todas as políticas adotadas pelo conluio de quadrilheiros, que tomaram de assalto o poder, foram no sentido de roubar direitos dos trabalhadores, pilhar as nossas riquezas e entregá-las ao todo poderoso “deus-mercado", o verdadeiro dono do poder.

Na arapuca que vinha sendo armada desde os últimos meses do segundo mandato de Dilma, qualquer projeto, ou lei, que fosse para o benefício dos mais pobres foi solenemente ignorado ou revogado por iniciativa do consórcio Temer/Cunha/Aécio, os 300 picaretas e sua máquina de propaganda consubstanciada na Rede Globo e seus satélites em benefício das oligarquias financeiras internas e externas.

E o que vimos na última quinzena de maio deste ano, senão um “casamento” conturbado da greve de caminhoneiros autônomos (a noiva), com o locaute das grandes transportadoras (o noivo), que terminou ali mesmo no altar, provocando a maior paralisação do setor de transporte da história?

Uma pequena amostra grátis do que seria uma intervenção militar, que alguns “grevistas” pediram, nos foi oferecido sem cerimonias:

Com o casal ainda na “Igreja”, tudo parecia perfeito. Aparentemente havia um clima harmonioso entre o “padrinho” (governo) e cônjuges. Foi só o noivo jogar fora as “alianças”, abandonando ali mesmo a pobre “traída”, que o “pau-comeu” solto com bombas de gás, tiros e cassetetes pra cima da desprovida.

Usuários do transporte coletivo se acotovelando nos terminais de ônibus, filas quilométricas nos postos de combustíveis, desabastecimento e aumentos absurdos nos preços das mercadorias, “paradeira” em todos os setores da economia, motoristas alvejados por balas de borrachas, coxinhas descerebrados se ajoelhando em frente aos quarteis, implorando intervenção militar, e falta de esperança no rosto da população, são apenas algumas pálidas imagens do álbum fotográfico do golpe.

Todo este caos em que vivemos é consequência também da decisão irresponsável do multi-delatado Aécio Neves, ao não aceitar a reeleição de Dilma.

Derrotado na urna, o “mineirinho” incitou a obstrução congressual do governo com o apoio providencial do Tribunal de Contas da União, do ex-deputado Eduardo Cunha e de alguns governadores, entre eles o de Mato Grosso, Pedro Taques, que, “apressadinho”, mergulhou de cabeça nas aguas turvas e pútrida do pantanal golpista. Com isso, suicidou-se politicamente, enforcado nas árvores desfolhadas de um serrado em chamas.

E, para piorar o quadro fúnebre da democracia, grupos de midiotas e fascistoides, como o MBL e Vem pra Rua, patrocinados por financiadores “desconhecidos”, se aliaram ao golpismo, produzindo todos os esforços possíveis e imagináveis para retirar Dilma do governo.

Por conceitos, como Democracia, Estado Democrático de Direito, Soberania das Urnas ou Soberania Nacional, os mesmos estavam pouco “se lixando”.

Para atingirem seus objetivos torpes, prepararam lavagem cerebral coletiva em toda a nação, usando-se de meios persuasivos (rádio, tv, jornal, internet, outdoor etc.), dizendo que era só tirar a Dilma que o país iria se transformar no Éden aqui na terra.

A paralisação dos caminhoneiros, autônomos ou não, apenas revela o que já sabíamos: que os golpistas, muito além de corruptos, são vendilhões-lesa-pátria que lançaram o povo brasileiro na boca da fera do sistema financeiro, o “minotauro global”, devorador do futuro dos nossos filhos nos labirintos da politicalha financista.

As federações estaduais de indústria e de comércio, antes tão ativas contra Dilma, em dois anos, nada disseram contra Temer e seu bando. Somente agora, quando a crise se aprofunda, e os golpistas, um a um, são desmascarados, e a verdade começa a vir à tona, é que alguns deles surgem pelos corredores do país, com o clássico chororô sobre o leite derramado, tais quais seus paneleiros e manifestoides arrependidos.

Os prejuízos causados ao país são incomensuráveis, chegando à casa de centenas de bilhões de reais. Recentemente, em evento do jornal Valor Econômico, que reuniu dezenas de empresários e altos executivos, o clima era de desalento.

A crise vai se aprofundando de tal modo, que até mesmo algozes da Dilma Roussef e do Lula, partícipes da frente golpista que guindou Michel Temer ao poder, já prenunciando a próxima tempestade, vêm pressionando pela renúncia do usurpador.

Hoje, os militontos que ontem gritavam o “Fora Dilma” e o “Fica Temer”, para não deixarem qualquer dúvida de que são acéfalos, gritam o “Fora Temer e “Intervenção Militar Já”! Dá pra entender?

Todos percebem que a economia estancou. Há muitas empresas com as operações paradas, enquanto o comércio vem fechando as portas, como se comprova com números: no último trimestre de 2017, o PIB estava estacionado, com um aumento simbólico de 0,1%, e isso se repetiu no primeiro trimestre de 2018.

Temer e sua camarilha, capatazes dos interesses geopolíticos norte-americanos, ao fecharem refinarias nacionais, entregarem o pré-sal às empresas estrangeiras, submetendo os preços da gasolina, gás de cozinha e óleo diesel ao humor econômico internacional, simplesmente asfixiaram o Brasil para o maior regozijo do monstro do sistema financeiro mundial.

E não foi para isso que tiraram Dilma, e, para não disputar a eleição em 2018, prenderam o Lula, o maior líder popular do Brasil?

E aí, coxinhas, cínicos ou abestalhados, a quem serviu o golpe?

Antonio Cavalcante Filho, o Ceará, é sindicalista e escreve neste espaço às sextas-feiras - E-mail: antoniocavalcantefilho@outlook.com

Fonte RD News


sábado, 9 de junho de 2018

A MANSÃO DO AGRONEGÓCIO E DO VENENO, EM BRASÍLIA


Como a bancada ruralista articula-se num “bunker” para aprovar o projeto que pretende liberar por completo o uso de agrotóxicos. Estratégia central: garantir a governabilidade de Temer. Com popularidade zero, presidente precisa de apoio no Congresso. Ruralistas oferecem — e cobram caro 



Por Vasconcelo Quadro, na Agência Pública

A agenda na casa 19, do conjunto 8, na QL 10, do Setor de Habitações Individuais Sul, em Brasília, está cheia de segunda a sexta. A mansão, de arquitetura colonial, em tom amarronzado, fica às margens do lago Paranoá. Por lá, passam o presidente Michel Temer, em eventos importantes, os ministros da cúpula do governo, e políticos de quase todas as estirpes se misturam a empresários nacionais e estrangeiros, representados ou acompanhados por lobistas que surfam na onda do agronegócio.

O item principal deste maio de 2018 é a “Revisão da Legislação de Agrotóxicos”, a bola da vez da bancada ruralista (os 228 deputados e 27 senadores de todos os partidos, com exceção de PT, PCdoB, PSOL e Rede, que compõem a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA). Depois de tomar as rédeas da Funai, a meta é derrubar os limites impostos pela Constituição, Código Florestal e outras leis sobre a instalação e expansão do agronegócio. O tema do momento é a mudança radical na legislação dos agrotóxicos instituída em 1989, sob o argumento de que, “desatualizada e excessivamente burocrática”, precisa ser substituída por um novo marco legal. Entre outras “atualizações”, o projeto propõe que seja retirado o alerta da caveira e advertências de risco da embalagem dos agroquímicos – que passariam a ser chamados de “produtos fitossanitários”.

O projeto tem como autor o maior produtor de soja do mundo e atual ministro da Agricultura do Brasil, Blairo Maggi, a quem caberia aplicar as novas medidas. Em 2002, Maggi assumiu uma cadeira do Senado como suplente do ex-senador mato-grossense Jonas Pinheiro com a missão de mexer na lei dos agrotóxicos. Aprovado o projeto no Senado, voltou para suas fazendas, de onde sairia para disputar e vencer a eleição para governador do Mato Grosso no mesmo ano, dando início à trajetória política que o coloca como um dos personagens mais fortes do agronegócio e do governo Temer. No mês passado, Maggi foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por corrupção que teria ocorrido no período em que era governador.

O projeto de Maggi – o PL 6.299/2002 – tramita em uma Comissão Especial da Câmara, e a bancada ruralista trabalha para que seja enviado brevemente ao plenário. Na batalha pela aprovação do substitutivo, com relatoria do deputado paranaense Luiz Nishimori (PR-PR), também ruralista, o deputado Alexandre Molon (PSB-RJ), opositor do projeto, chegou a flagrar um desconhecido votando entre os deputados sob o olhar condescendente da deputada Tereza Cristina (MS), presidente da Comissão e da Frente Parlamentar Agropecuária. Só depois de repreendida por Molon, que exigiu providências em respeito ao decoro parlamentar, Tereza Cristina pediu que o homem não se manifestasse. Ainda assim, o deputado gaúcho Covatti Filho (PP), autor de um dos projetos apensados ao substitutivo, reagiu aos gritos em defesa do desconhecido: “Aqui todos são deputados”, disse.

Diante dos protestos oposicionistas, que apontavam os dedos para ele, o homem bateu em retirada, fazendo um gesto de deixa disso para a presidente. Ninguém ficou sabendo quem era. O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) arriscou um palpite. “Deve ser do bunker”, disse ele, referindo-se à fama da mansão do Lago Sul, vista, até algum tempo atrás, como um local de reuniões secretas, uma confraria em que só a irmandade ruralista ou seus convidados entravam.

O lobista

O homem que tentou votar como se fosse deputado é o engenheiro agrônomo João Henrique Hummel Vieira, 56 anos, formado na UnB, lobista e estrategista das ações rurais no Legislativo. Ele é o diretor-executivo do Instituto Pensar Agropecuária, o IPA, entidade que controla, nos bastidores, a poderosa bancada ruralista. João Henrique, como é chamado, se tornou um requisitado consultor sobre a defesa dos interesses do agronegócio no Congresso ou no governo.
É ele o homem que controla a mansão do Lago Sul que até o início deste ano funcionava a 50 metros da nova sede da FPA, na casa 6, no mesmo conjunto 8 da QL 10. Incomodados com a falta de privacidade para as reuniões dos parlamentares, IPA e FPA mudaram-se para a casa 19, deixando no espaço duas entidades coirmãs, Aprosoja e a Abrapa, e o Canal Rural, veículo comprado do grupo gaúcho de comunicação RBS pela JBS, antes de Joesley e Wesley Batista serem apanhados pela Lava Jato.

A mudança veio a calhar para a deputada Tereza Cristina, que, fazendeira e presidente da FPA, não precisará dividir o mesmo espaço com um veículo da JBS, com a qual briga nos tribunais do Mato Grosso do Sul por R$ 4,5 milhões cobrados por Joesley por conta de investimentos, segundo ele não honrados, num projeto de confinamento de bois na propriedade da parlamentar e de seus familiares em Terenos.

Também ficou para trás um texto emoldurado, escrito pelo jornalista Reinaldo Azevedo, com objetivo de demonstrar que, apesar de representar o setor que mais pesa na balança comercial e detentor da maior participação no PIB (quase 23,5% no ano passado), a bancada ruralista é tratada como a Geni da política: “Ruralistas costumam ser muito mal vistos por certos setores minoritários e barulhentos. Apanham de todo mundo: das esquerdas, dos verdes, dos índios, da imprensa, de atores e atrizes ‘progressistas’, de fanáticos do aquecimento global, do Bono Vox, do Sting… Em suma: este é um dos únicos países do mundo em que os que produzem riquezas são alvos da fúria dos que produzem discursos”, escreveu Azevedo.

A moldura que ficava na parede da entrada principal do antigo “bunker” não cabe na nova estratégia de comunicação do IPA e de seu braço político, a FPA. O diretor João Henrique, que recebeu a Pública, não costuma dar entrevistas. Chegou a pedir que a conversa fosse em off, frisando que quem fala em nome da entidade é o presidente, mas acabou concordando em gravar a entrevista (veja na íntegra em “Conversa com um Lobista”). Ele define o IPA como uma “central de inteligência, geradora de conteúdo para deputados e senadores membros da FPA, destinada a “modernizar” a legislação trabalhista rural, fundiária, tributária e indigenista “para garantir a segurança jurídica necessária” para o agronegócio.

Pouco conhecido do público, o IPA norteia e define as ações da bancada ruralista na defesa do agronegócio e na sustentação política do governo Temer. Com personalidade jurídica de associação privada, está vinculada a 40 entidades nacionais que representam os gigantes do agronegócio. Além da bancada, os ruralistas conseguem formar um bloco que ultrapassa 270 votos com a ajuda das chamadas bancadas da bíblia e da bala – que, em contrapartida, obtêm votos dos ruralistas nos temas que interessam os políticos evangélicos e/ou ligados à segurança. Vieram dessas bancadas, por exemplo, os votos de que o presidente Michel Temer precisava para escapar de ser investigado pela Justiça.

Criado em 2011, o modelo de gestão do IPA tem como vantagem a arrecadação financeira, baseada em contribuições de 40 entidades ligadas ao agropecuário, driblando o principal obstáculo das frentes parlamentares, que, por lei, não podem ter orçamento próprio. É esse o canal para receber doações das multinacionais de sementes, insumos e agroquímicos, embora oficialmente o IPA não aceite contribuições externas.

As reuniões das terças-feiras

Além dos recursos financeiros, a força de sustentação do IPA inclui a oferta de quadros técnicos e políticos para instruir deputados e senadores, logística e estrutura física. Os deputados recebem a pauta, “positiva ou negativa”, com informações e argumentos sobre o que deve ser discutido no Congresso. As decisões são tomadas geralmente às terças-feiras em reuniões com os parlamentares mais ativos, em número que varia de 40 a 50 com influência sobre os demais.

Em conflito com entidades ambientalistas, fundiárias e de direitos humanos, o IPA defende o uso de armas na defesa da propriedade privada contra invasões e deixa claro que seus adversários principais são índios, quilombolas, sem-terra e as ONGs internacionais, que, na opinião de João Henrique, trabalham para inviabilizar a expansão do agronegócio a pedido dos países europeus. No campo político, o inimigo é quem defende os direitos ambientais, o território dos povos originários e a reforma agrária – todos protegidos pela Constituição – ,vistos genericamente como “de esquerda”. Contra eles, parecem estar dispostos a tudo, como mostram, por exemplo, os ataques aos Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul ou à caravana do ex-presidente Lula no Rio Grande do Sul, em uma área que já havia sido alvo de conflitos pela reforma agrária.

As pretensões do IPA vão além do Congresso e do governo. Seu objetivo é, também, estimular a influência parlamentar junto ao Judiciário e às demais entidades da sociedade civil, como explica o cientista político Gustavo José Carvalho de Sousa. “A força, a capacidade técnica e o trabalho do IPA refletem o sucesso da FPA”, diz o pesquisador, que estudou em sua monografia na UnB o papel efetivo do IPA/FPA nas disputas legislativas e políticas. Um protagonismo que ainda não é de conhecimento público, de acordo com Sousa. No ano passado, o setor movimentou R$ 30 bilhões, com isenções da ordem de R$ 1 bilhão aos fabricantes

Cientes da baixa aceitação da pauta ruralista nos meios urbanos, o IPA e a FPA estão tentando mudar a imagem através de campanhas com slogans como “Agro: a indústria-riqueza do Brasil”, financiada com ajuda de um de seus parceiros, a JBS, dona da marca Maturatta-Friboi, que ficou dois anos no ar na Rede Globo, também conhecida pelo slogan “Agro é pop, agro é tech”. Ainda assim, a mudança na lei dos agrotóxicos não está sendo bem vista pela população. Uma enquete na Câmara dos Deputados mostrava, no dia 4 de junho, que 88% dos quase 18 mil votantes condenavam a mudança da lei.

Mais veneno nas lavouras

Com uma taxa de consumo beirando 7 litros per capita/ano, a maior do mundo, e uma lei que libera o uso de agrotóxicos no cultivo com limites de 200 a 400 vezes maiores do que o permitido na Europa, os agricultores querem mais veneno nas lavouras. A proposta dos ruralistas, representada no substitutivo do deputado Luiz Nishimori, tira a concessão e manutenção do registro dos produtos das alçadas da Anvisa e do Ibama, que cuidam, respectivamente, dos impactos na saúde humana e ambientais, para se transformar em prerrogativa exclusiva do Ministério da Agricultura (Mapa). No território de Maggi, como sabem os ruralistas, a tendência é priorizar mecanismos e ferramentas que alavanquem o agronegócio.

Aos órgãos de saúde e meio ambiente caberia apenas o papel de homologar laudos de avaliação de risco fornecidos pelo fabricante. Produtos com substâncias cancerígenas, teratogênicas ou que possam provocar distúrbios hormonais prejudiciais à formação de fetos poderiam ser registrados e só seriam proibidos se oferecerem “risco inaceitável”, comprovado pelos órgãos oficiais.

O substitutivo prevê ainda concessão de registro temporário por decurso de prazo (quando o órgão público demora para decidir), elimina a competência dos estados e do Distrito Federal para restringir a distribuição, comercialização ou o uso, ressalvando que estes só podem proibir se comprovarem cientificamente os riscos, uma inversão do ônus da prova, atualmente sob responsabilidade dos fornecedores. Os municípios também perderiam o poder de legislar sobre o uso de armazenamento dos venenos, o que fazem atualmente em complemento às ações das instituições federais.

Anvisa, Ibama, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, e Fiocruz são os principais adversários do projeto, bombardeado também por ONGs, pelo Instituto Nacional do Câncer, pela Fiocruz e outras 280 entidades, além do Ministério Público Federal, que o qualificou como um “passeio” inconstitucional. As entidades advertem que, se o uso exagerado de agrotóxicos já produz danos comprovados, o quadro pode ficar ainda mais agudo diante da possibilidade de aprovação do novo marco. Muitos produtos proibidos em outros países, dizem as entidades, poderão ser consumidos largamente no Brasil.

Uma das advertências mais incisivas veio de uma Nota Técnica assinada pela presidente do Ibama, Suely Araújo, e outros três dirigentes do órgão. “O registro dos agrotóxicos, com participação efetiva dos setores de saúde e meio ambiente, é o procedimento básico e inicial de controle a ser exercido pelo poder público e sua manutenção e aperfeiçoamento se justificam na medida em que seja, primordialmente, um procedimento que previa a ocorrência de efeitos danosos ao ser humano, aos animais e ao meio ambiente”, diz a nota.