quinta-feira, 21 de maio de 2009

Câmara expõe delinqüência e rejeita investigação contra Lutero


Raoni Ricci

Redação 24 Horas News



Desviar mais de R$ 3 milhões não é crime. Ainda mais se for de dinheiro público, constituído do suor do trabalhador. Pelo menos é o entendimento de nove vereadores da Câmara Municipal de Cuiabá. Com votos “cabrestados” pela delinqüência com que costumam agir, eles jogaram no lixo o requerimento feito pelo Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral (MCCE) e do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) para que fosse aberta uma Comissão Processante destinada a investigar suposto desvio do Orçamento Legislativo, na gestão de Lutero Ponce de Arruda (PMDB). Uma vergonha pública, uma mancha histórica representada numa vaia que ecoou das galerias tamanho o absurdo cometido.


E a vala foi comum mesmo. Do líder do prefeito ao suposto chefe da oposição. Saibam quem são eles: Francisco Vuolo (DEM), Paulo Borges Filho (PSDB), Lueci Ramos (PSDB), Chico 2000 (PR), Antônio Fernandes (PSDB), Professor Neviton e Ralf Leite, ambos do PRTB, não deram a mínima para o clamor popular. Detalhe exdrúxulo da modelo político que impera por estes lados: Neviton e Ralf Leite são do PRTB, partido que pediu a abertura da Comissão Processante. Ou seja: expulsá-los da sigla com direito a perda de mandato não seria nada demais. Lembrando que Ralf Leite já responde por falta de decoro parlamentar, no episódio da “Noite sem Fim”, quando se envolveu com um travesti menor.


Também votou contra a criação da CPI o próprio Lutero Ponce, evidentemente. Após o resultado, comemorou com desdém, dizendo que estava disposto a ser investigado pela Delegacia Fazendária, Ministério Público, Tribunal de Contas, entre outros. Menos pelos próprios companheiros de trabalho.


E há muito mais entre o céu e o inferno. A ausência do vereador Levi Levi (PP), que justificou a falta em plenário a um compromisso assumido anteriormente em São Paulo, pode ser interpretada como um gesto de pouco interesse público. Até porque nenhum compromisso de um vereador seria maior que o interesse da sociedade. Do mesmo partido de Deucimar Silva, presidente da Câmara Municipal e desafeto declarado de Lutero Ponce, o quadro poderia ser outro. Haveria empate e, assim, Deucimar entraria para o desempate, aceitando a proposta da CP. Júlio Pinheiro (PTB) também não deu com as caras.


Outro: Ivan Evangelista (PPS). Egresso das lutas de comunidades de bairro e organização política de base do PT, Evangelista simplesmente ficou no muro e se absteve de votar. Fez tão pior quanto Levi Levi e Júlio Pinheiro. Que a sociedade não esqueça tais nomes.


A decisão dos oito vereadores, a rigor, não causa surpresa. Afinal de contas, o Legislativo Municipal nunca esteve em sintonia com os interesses mais nobres da população. O coordenador-geral do MCCE, Antônio Cavalcanti Filho, o “Ceará”, um dos mais efetivos ativistas políticos em busca da moralidade, até que tentou forçar a barra ao dizer que o Legislativo “não tem mais moral para cobrar do Executivo” qualquer coisa. Nunca teve! E, pelo jeito, nunca terá. O que os vereadores fizeram nesta quinta-feira foi apenas confirmar o que já se sabia sobre a falta de responsabilidade e cuidado com a coisa pública, compromisso que só pode ser assumido por homens verdadeiros, de essência.


Um detalhe que pode servir como um bom indicador de como as coisas funcionaram nesse episódio do arquivamento do pedido da CP foi uma declaração menosprezada do próprio Lutero. “Não tenho medo de cassação”- disse, no começo da semana, ao tentar explicar o “rombo” encontrado pela auditoria – e que não explicou nada, limitando-se a contra-atacar. A declaração tinha uma profundidade ainda maior. A tranqüilidade com que abordou o que seria preocupante, na verdade, era uma senha do tipo “não vou sozinho”. Ao que se sabe, Lutero "apresentou a fatura" de algumas traquinagens realizadas pelos vereadores na época em que foi presidente. E, por tabela, constituiu mais alguns aliados ao seu calvário.


Diante do episódio, só restou ao presidente Deucimar Silva, que tenta, de forma até meio atabalhoada, dar uma versão diferente para a péssima imagem do Legislativo, decretar o arquivamento das denúncias. Agora, restará a Justiça tomar as rédeas da situação. Os desvios indicados pela auditoria, contratada pela própria Câmara, a par da consistência do relatório produzido, fica a cargo da Polícia Fazendária. Depois, será a vez do Ministério Público e, finalmente, a Justiça. Repita: que ninguém esqueça o nome dos vereadores que rejeitaram a investigação.


E, por justiça, os nomes dos vereadores que - pelo sim, pelo não - merecem o crédito de ter tentado o chamado "bom combate": Roosivelt Coelho (PSDB), Everton Pop (PP), Domingos Sávio (PMDB), Lúdio Cabral (PT), Toninho de Souza e Adevair Cabral, ambos do PDT, e Pastor Washington Barbosa (PRB).