
DEFINIÇÕES DO CANALHA:
José Luis da Silva
O canalha é aquele que não concorda com você mas diz que está certo.
O canalha é aquele que aprova sem aprovar, que aplaude sem aplaudir, que sofre sem sofrer, que manda cartões de pêsames sentindo parabéns.
Os amigos do canalha duram o tempo da função que eles exercem.
O canalha pode ser tratado permanentemente por excelência, mas jamais será excelente.
Onde reside o canalha? Em todos os lugares, todas as situações, menos nele mesmo.
O canalha é um sertanejo às avessas. Ele é antes de tudo um fraco.
O canalha engorda com a inflação.
Quem diz que o canalha dorme? Ele é um eterno vigilante. Por isso, com ele os bons não conseguem sobreviver.
Quando Jesus Cristo disse que os filhos das TREVAS são mais espertos do que os filhos da LUZ, ele via diante de si a multidão de canalhas querendo usufruir o poder. Lá na Palestina...
Quando um canalha mora num palácio, ele se diz pragmático.
O canalha jamais aceitará um concorrente. Ele vive de jogadas. Aliás, para ele a vida é simplesmente um jogo.
O carro preto à mão de um canalha, será o carro fúnebre do povo.
As artimanhas do canalha, muitas vezes o transformam em amado. Aí reside o grande perigo. Mussulini foi amado por algum tempo. Hitler também.
Um país está em decadência, quando não consegue distinguir quem não é canalha.
Não se preocupe com o que estou escrevendo.
O CANALHA JAMAIS SOFRE.
Des-ODE AO CANALHA
José Luis da Silva
Há dois tipos de homem, capazes de perdoar
77 vezes 7: o SANTO e o CANALHA.
Somente os dois serão capazes de dar a face direita depois de ter apanhado na face esquerda.
Aquele pela humildade, este pela malandragem.
Para o santo, esquecer é um gesto natural.
Para o canalha também.
O santo escuta desaforos, vai aos tribunais,
recebe insultos e depois volta sorrindo,
porque sua força está dentro dele.
E o canalha?
Justamente porque é destituído de qualquer força interior desnutrido de qualquer dimensão ética, ele aceita tudo sorrindo.
Seu sorriso, porém,
é um misto de cinismo e desfibramento.
O santo não sofre.
O canalha também.
Para ambos tudo é passageiro e supérfluo.
Mas nós outros, nem santos nem canalhas,
nos perdemos na contradição da maldade.
Ficamos bobamente exigindo justiça,
querendo ingenuamente assumir um compromisso com a palavra dada,
com a afirmação feita.
Mas hoje,
qual é a palavra que corresponde a ela mesma?
Quem soube roubar, apenas faz "química",
quem mente, faz restrições mentais;
quem adultera conseguiu transar uma diferença.
Em todos os espaços o santo poderá viver.
Há um terreno porém, onde ele se perderá impreterivelmente.
Aqui, todo o seu treinamento místico,
toda sua ascese,
todos os seus jejuns e sacrifícios,
todo seu aprendizado,
serão inevitavelmente sacrificados com um simples gesto de zombaria ou com um abraço ensaiado para se chamar fraternal.
E é justamente aí onde o canalha tem "NOURRAL".
Na hora de dizer sem estar dizendo,
ou abraçar traindo,
de sorrir denunciando,
de convocar recusando,
de oferecer retirando,
de aderir explorando,
de chorar sorrindo por dentro,
de sorrir queimando de ódio.
O canalha é o artesão da maldade.
Ele não cresce isolado.
Ele consegue ter a cor do trigo, o farfalhar do trigo,
mas ele é joio.
Aproveita o vento que sopra e os raios do sol para também tornar-se cheio de vida.
O santo é exigente com ele mesmo.
O canalha é exigente com os outros.
Para o santo não há dia seguinte.
Para o canalha também.
Ambos têm um compromisso com seu agora...mas o agora do canalha é sempre um instante de interrogação.
Você já conviveu com o SANTO?
E com um CANALHA?
Se não experimentou, jamais entenderá o que estou pretendendo lhe dizer.
O CANALHA E A CANALHICE NA CULTURA POPULAR
Gutenberg Costa
Como bem disse o saudoso amigo escritor José Luiz Silva, em seu livro “Na Calçada do Café São Luiz”, pág. 27: “O canalha é um sertanejo às avessas. Ele é antes de tudo, um fraco”.
Portanto, o povo sertanejo e nordestino tem o canalha como a figura do capeta, do traidor, do Judas, do falso, do ruim, perverso, mau amigo, mau filho, mau marido e mau vizinho.
O canalha é invejoso, azarento, egoísta; é delator, falso e, principalmente, inimigo número um do povo.
Consultando a obra do escritor Raimundo Nonato – “Calepino Potiguar”, pág. 80, encontramos o verbete “Canaiada”: Molecagem, Sujeira, Babozeira, Safadeza”. Corruptela popular de canalhada, que é a arte do canalha.
O matuto quando se vê diante de uma sujeira, feita por um tipo canalha, esbraveja: “Isso é uma canaiada!”.
Outro grande dicionarista, Tomé Cabral, em “Dicionário de Termos e Expressões Populares”, pág. 174, nos mostra outra variante popular do canalha/canalhismo: “Canaismo”, corruptela de canalhismo e “Cala a boca mundiça, deixa de canaismo na mesa”.
Canalhice maior não há do que na estória da fábula do sapo e do escorpião. Ajudado pelo sapo, que mostrava o seu companheirismo ajudando-o atravessar o rio em suas costas, o escorpião, em agradecimento, pica o sapo. “Por que fizeste isto comigo, senhor escorpião?” Perguntou o sapo. O canalha respondeu, covardemente: “Isto faz parte do meu instinto, senhor sapo!”.
Foi o instinto de cavalheirismo que forçou ao próprio homem matar a galinha dos ovos de ouro, naquele conto popular. O lobo vestiu-se de cordeiro para, como canalha, enganar os animais desprovidos de maldade. O canalha no final da vida paga um preço alto, segundo os exemplos de estórias contadas pelo povo. No inferno, é o capeta maioral que o espera há tempos.
Na literatura de cordel, o canalha é inspiração dos poetas, nos incontáveis títulos. Citaremos alguns do nosso acervo:
“O ladrão besta e o sabido”, de Pinto e Rouxinol; “A moça que bateu na mãe e virou cachorra”, de Rodolfo Coelho Cavalcanti; “Encontro de Cancão de Fogo com Pedro Malazarte”, de Minervino Francisco Silva; “O rapaz que virou bode porque profanou de Frei Damião”, de José Costa Leite; “O filho que matou a mãe, Sexta-feira da Paixão por causa de um pau de macaxeira”, de Olegário Fernandes e “O homem que ganhou na loteria esportiva ajudado pelo diabo”, de Rodolfo Coelho Cavalcanti.
Nas ditas “frases” e “filosofias” do povo, a canalhice e o canalha é sempre usado quando o primeiro é vítima do segundo, em suas artimanhas diabólicas. Muitos estudiosos da paremiologia nordestina fizeram citações desses provérbios em seus livros, entre eles, Câmara Cascudo, Leonardo Mota e Fontes Ibiapina. Vejamos Alguns exemplos:
“Acende uma vela para Deus e outra para o diabo”.
“Cachorro lambeu a vergonha na cara dele”.
“É o cão do livro segundo”.
“É um pedaço de mau caminho”.
“É um cano de esgoto”.“É um santinho de pau oco”.
“É um satanás pregando quaresma”.
“É um resto de parto que a onça deixou”.
“É um cheio de canto de unha”.
E por aí vai a canalhice.
