Prof. Dr. Luiz Carlos Santuario*
Corrupção:
catalogar efeitos ou identificar origens? Quando tentamos investigar as
possíveis causas da hemorragia da corrupção que, com tristeza e
estupefação, obervamos na cena contemporânea de nosso país e, quando
tentamos investigar as causa da existência deste perverso fenômeno,
devemos ir um pouco mais além do que a mera catalogação de efeitos. A
narrativa meramente censitária, a mera catalogação somativa dos eventos
não poderão nos levar a uma compreensão mais radical deste fenômeno, tão
presente na vida social de países subdesenvolvidos(principalmente) que,
por razões que examinaremos a seguir, constitui-se, na maioria das
vezes, de uma população impotente para erradicar este insidioso flagelo.
A democracia
representativa como sistema, in abstrato, se constitui numa forma justa,
eficaz e imprescindível para a vida social de um país. O
representado(povo) tem acesso, através de uma procuração( a que chamamos
simplificadamente de voto), a poder dizer o que quer, espera e deseja
para si, sua família, sua cidade, seu estado, seu país. O
representante(o eleito), de posse da procuração recebida, legisla tendo
como télos (objetivo) a realização das aspirações do representado.
Esta
descrição do eficaz funcionamento in abstrato do modelo da democracia
representativa poderá parecer a alguns tedioso, a outros irritante e
outros ainda como um ingênuo conto de fadas. O que estupefatamente
observamos e vivenciamos em nossa "realidade cotidiana" é algo
extremamente distante da eficácia descrita acima. Vemos desfilar uma
coletânea infindável de atos imorais, negociatas, falcatruas, mentiras e
toda sorte de ações abjetas, que trafegam na contramão da eticidade
constitutiva do molde originalmente concebido.
Ao
invés de efetuarmos a simples catalogação de efeitos e a mensuração
censitária de eventos devemos tentar investigar um pouco mais a fundo a
origem da possibilidade da corrupção. Não estaria ela na cisão, ocorrida
entre o representado e o representante? Este, autocraticamente
reescreeve o conteúdo da procuração recebida, passando então a legislar
em causa de terceiros(não do representado), para benefício próprio.
Creio que devemos identificar exatamente nesta cisão a origem da
possibilidade da existência de atos e ações que chamamos de corruptas.
Mas,
perguntamos então, como é possível a convivência com esta desastrosa e
pacífica cisão entre representante e representado? Quando nos calamos
frente a outrem é porque lhe supomos e atribuímos a posse de um Saber
privilegiado. Nosso mutismo, a nível de palavras e ações é diretamente
proporcional à extensão deste Saber, sempre atribuído (pois Sabemos
desde a Psicanálise, com Freud e Lacan, que não há Lugar de Saber
privilegiado, a não ser o Inconsciente). É devido a esta pseudo-posse de
um Saber privilegiado, outorgado pelo súdito, que podereremos localizar
as raízes profundas da hemorragia da corrupção.
A
abstinência em perseguir, obter e exercer algum Saber, por parte do
Súdito é a condição que permite ao Senhor ( o eleito) o exercício a
partir de uma procuração, agora auto-instituída. Esta "ejaculação
precoce " (vivida a nível social) faz com que o Súdito acorra
cotidianamente à mídia (escrita, mas preferencialmente vivida no espelho
invertido que é a televisão).Esta, como superego fracassado do súdito,
tenta em vão estancar tão perversa hemorragia, construíndo um dique
composto por uma coletânea infinda de fatos e eventos. Aquí um Senador,
alí um Ministro, acolá um Presidente, etc.
O
Súdito tendo se auto-privado do acesso ao Saber, por ter feito a opção
pela cômoda " hibernação social ", espera agora do Messias eletrônico
que ele lhe resgate a cidadania. Esta paupérrima álgebra serve apenas
para sustentar um anacrônico subdesenvolvimento mental que se
retro-alimenta. Esta impotência para a ação somente cessaria não a
partir da narrativa e da denúncia de "fatos e eventos gerados pela
corrupção", mas a partir do abandono da cômoda posição adquirida em
função da outorga deste "Saber privilegiado". Somente a nossa condição
de súditos e não de efetivos cidadãos é que permite sermos reféns de tão
perverso processo.
*Prof. Dr. Luiz Carlos Santuário:
é Mestre em filosofia contemporânea pela UFRGS e Doutor em filosofia
pela PUCRS. Professor da Universidade de Caxias do Sul-UCS. Pesquisador e
orientador, tem trabalhos nas áreas de epistemologia, filosofia
contemporânea, filosofia e psicanálise, fenomenologia e hermenêutica.
Tem publicado pela EDUCS o livro Transformação da filosofia - Semiótica
transcendental de Karl-Otto Apel e o livro Lei do desejo – Epistemologia
da psicanálise lacaniana e mais de 15 artigos em revistas
especializadas e capítulos de livros. É líder do Grupo de Pesquisas
Hermenêutica, Ciências Humanas e Educação do CNPq e Co-líder do Grupo de
Estudos Interdisciplinares Fenomenologia do Conhecimento e Antropologia
filosófica do CNPq/PUCRS, coordenado pelo Prof. Dr. Ernildo Stein.
Membro do GT Filosofia e Psicanálise da ANPOF. Membro da Sociedade
Brasileira de Fenomenologia. Colunista da RedePSI. Avaliador do
MEC/Inep.

