OS DEGENERADOS ACHAM QUE NÃO TÊM LIMITES
Por LUIZ FLÁVIO GOMES*
Estamos em fase de registro de
candidaturas. Milhares foram impugnadas, em todo país, por causa da lei
da ficha limpa (Maluf, Arruda, Jaqueline Roriz etc.). Mesmo os
candidatos publicamente flagrados em corrupção lutam pela reeleição. Por
detrás disso está o poder e os privilégios (em alguns casos, o de não
ser preso). Com o fim a reeleição (veja nossa petição eletrônica nesse
sentido: fimdopoliticoprofisional.com.br) não haveria mais nenhuma
discussão. Daí a nossa luta.
Por que nem os corruptos (políticos,
por exemplo) nem seus corruptores (construtoras, bancos, empreiteiras
etc.) não se envergonham? Porque a característica central dos degenerados
(sobretudo dos políticos, que representam parte do poder) é que eles se
julgam não limitados nem sujeitos a instâncias superiores. Nos regimes
totalitários e nas ditaduras, a grande massa da população acha que seu
bem-estar e futuro estão atrelados às virtudes e atitudes do chefe (do
caudilho). Ela tem como referência uma instância superior.
Onde foram vencidos os regimes autoritários e totalitários, prosperou a democracia. Mas o que caracteriza o homo democraticus,
nas sociedades anômicas (como é o caso do Brasil, marcado pelo
desmoronamento da eficácia das normas e dos valores republicanos), é a
vulgaridade generalizada. Ele não enxerga nenhuma instância fora ou além
dele mesmo. Trata-se de um humano autossatisfeito consigo mesmo e da
forma como vive. Conforme agrava sua anomia (seu distanciamento das
normas e valores), mais se profunda sua degeneração.
O degenerado (na política, na
polícia, na sua casa diante dos seus familiares etc.) só encontra
limites quando é forçado a isso. Seu habitat natural, portanto, é
o território onde não existe o império da lei geral e impessoal. Aí ele
se torna um soberano, um déspota ou um depravado.
Por que vemos muitos degenerados,
sobretudo na política? Porque é muito mais fácil ser um degenerado que
um humano exemplar, que possui uma férrea convicção de que a convivência
humana (com outros seres humanos) exige a observância de normas que vão
muito além dele mesmo.
O humano que se caracteriza pela
exemplaridade exige muito de si mesmo, labuta diariamente (e em todo
momento) para não fugir das regras razoáveis de convivência; é fiel
cumpridor dos seus deveres e não enxerga os direitos como os únicos
existentes na vida. Não se dá aos caprichos nem aos voluntarismos. O
degenerado, ao contrário, não se exige nada, é um pseudo-imperador e
vive contente consigo mesmo, aliás, possui encantamento por ele mesmo,
por sua vulgaridade e pelo seu descaramento. Nada o envergonha.
Contrariando tudo que acreditamos
(dizia Ortega y Gasset), “é a criatura seleta [exemplar, cumpridora dos
seus deveres, prezadora da sua honra, a que ainda sente vergonha], não o
degenerado, que vive em essencial servidão, a serviço de algo
transcendente [preservação das normas e valores]. Não faz isso por
opressão, sim, por convicção”.
*LUIZ FLÁVIO GOMES é Jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Estou no professorLFG.com.br
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DEGENERAÇÃO E EXEMPLARIDADE
Por LUIZ FLÁVIO GOMES*
Se a política é muito mal vista também
pelos brasileiros (81% acham que os partidos são corruptos ou muito
corruptos, segundo o Ibope), é porque ela vem sendo exercida (por meio
de várias reeleições) muito mais por integrantes das classes degeneradas
que por componentes da classe exemplar. Uma forma simples de não
incentivar a degeneração do político é acabar com a possibilidade de
reeleição (proibindo-se também que algum parente dele seja seu imediato
sucessor na política). Se pai e filho querem ser políticos, que
concorram concomitantemente, nunca sucessivamente (um ao outro) (veja
nossa petição eletrônica nesse sentido:
fimdopoliticoprofissional.com.br).
A classe política, representante
teoricamente de todas as classes, mas compostas fundamentalmente das
camadas “superiores”, está repleta de degenerados. Isso comprova que os
degenerados estão em todas as classes sociais. Constitui, portanto, um
erro tosco e abominável identificar as classes degeneradas com as
classes economicamente desfavorecidas, as chamadas depreciativamente de
plebe. Não menos equivocada é a ideia de que exemplares são as
classes sociais mais elevadas. Nada mais preconceituoso, discriminatório
e grosseiro. Essa concepção profana das classes sociais, aliás, é
aberrante. Os degenerados assim como os exemplares estão em todas as
classes sociais (A, B, C, D e E). Formam sub-grupos, extraídos de todas
elas.
De onde vem o preconceito contra as
classes economicamente degradadas? Vejamos: primeiro tentou-se dividir
as sociedades em raças (branca, negra, mulata, cabocla, cafusa etc.).
Hoje se sabe, depois do Projeto Genoma, que todos pertencemos,
biologicamente falando, a um tronco comum (nós e os macacos temos poucas
diferenças no DNA). Para os que partem do pecado original de Adão e Eva
a conversa ganha outra dimensão.
Alguns europeus (sobretudo do século
XIX, destacando-se o caso do engenheiro ferroviário Spencer, do
embaixador Gobineau etc.), completamente ignorantes da nossa
constituição genômica, dividiram o mundo em raças inferiores (as classes sociais proletárias europeias e os colonizados nas Américas e na África) e raças superiores.
O branco europeu ocuparia o patamar máximo da superioridade humana (daí
estar autorizado a subjugar os proletários e a “colonizar” as regiões
atrasadas e inferiores do planeta; e realmente fizeram isso, mediante
incontáveis genocídios “educativos” e “catequizadores”).
A divisão entre seres superiores e seres bárbaros decorreria de uma evolução natural (da espécie humana). Fala-se aqui em darwinismo social
(mas Darwin não tem nada a ver com isso – veja Zaffaroni 2012, 93).
Civilizados são todos (de acordo com a visão preconceituosa) os que
pertencem à categoria do homem europeu proprietário, branco, adulto, corporalmente são, livre e de orientação sexual
masculina. Os demais seriam todos bárbaros e/ou inferiores (daí a luta
sem fim, já secular e que não tem dia para terminar, das mulheres, dos
não proprietários, dos negros e índios, das crianças, dos portadores de
deficiência, dos escravizados ou em servidão, dos que seguem outras
orientações sexuais etc.). O dilema entre barbárie e civilização ainda
não acabou porque muitos “civilizados” pensam e agem barbaramente.
*LUIZ FLÁVIO GOMES é Jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Estou no professorLFG.com.br
Fonte IAB Instituto Avante Brasil
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