sábado, 2 de agosto de 2014

OS DEGENERADOS ACHAM QUE NÃO TÊM LIMITES


 
OS DEGENERADOS ACHAM QUE NÃO TÊM LIMITES


Por LUIZ FLÁVIO GOMES*

Estamos em fase de registro de candidaturas. Milhares foram impugnadas, em todo país, por causa da lei da ficha limpa (Maluf, Arruda, Jaqueline Roriz etc.). Mesmo os candidatos publicamente flagrados em corrupção lutam pela reeleição. Por detrás disso está o poder e os privilégios (em alguns casos, o de não ser preso). Com o fim a reeleição (veja nossa petição eletrônica nesse sentido: fimdopoliticoprofisional.com.br) não haveria mais nenhuma discussão. Daí a nossa luta.

Por que nem os corruptos (políticos, por exemplo) nem seus corruptores (construtoras, bancos, empreiteiras etc.) não se envergonham? Porque a característica central dos degenerados (sobretudo dos políticos, que representam parte do poder) é que eles se julgam não limitados nem sujeitos a instâncias superiores. Nos regimes totalitários e nas ditaduras, a grande massa da população acha que seu bem-estar e futuro estão atrelados às virtudes e atitudes do chefe (do caudilho). Ela tem como referência uma instância superior.

Onde foram vencidos os regimes autoritários e totalitários, prosperou a democracia. Mas o que caracteriza o homo democraticus, nas sociedades anômicas (como é o caso do Brasil, marcado pelo desmoronamento da eficácia das normas e dos valores republicanos), é a vulgaridade generalizada. Ele não enxerga nenhuma instância fora ou além dele mesmo. Trata-se de um humano autossatisfeito consigo mesmo e da forma como vive. Conforme agrava sua anomia (seu distanciamento das normas e valores), mais se profunda sua degeneração.

O degenerado (na política, na polícia, na sua casa diante dos seus familiares etc.) só encontra limites quando é forçado a isso. Seu habitat natural, portanto, é o território onde não existe o império da lei geral e impessoal. Aí ele se torna um soberano, um déspota ou um depravado.

Por que vemos muitos degenerados, sobretudo na política? Porque é muito mais fácil ser um degenerado que um humano exemplar, que possui uma férrea convicção de que a convivência humana (com outros seres humanos) exige a observância de normas que vão muito além dele mesmo.

O humano que se caracteriza pela exemplaridade exige muito de si mesmo, labuta diariamente (e em todo momento) para não fugir das regras razoáveis de convivência; é fiel cumpridor dos seus deveres e não enxerga os direitos como os únicos existentes na vida. Não se dá aos caprichos nem aos voluntarismos. O degenerado, ao contrário, não se exige nada, é um pseudo-imperador e vive contente consigo mesmo, aliás, possui encantamento por ele mesmo, por sua vulgaridade e pelo seu descaramento. Nada o envergonha.

Contrariando tudo que acreditamos (dizia Ortega y Gasset), “é a criatura seleta [exemplar, cumpridora dos seus deveres, prezadora da sua honra, a que ainda sente vergonha], não o degenerado, que vive em essencial servidão, a serviço de algo transcendente [preservação das normas e valores]. Não faz isso por opressão, sim, por convicção”.

*LUIZ FLÁVIO GOMES é Jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Estou no professorLFG.com.br



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DEGENERAÇÃO E EXEMPLARIDADE



Por LUIZ FLÁVIO GOMES*

Se a política é muito mal vista também pelos brasileiros (81% acham que os partidos são corruptos ou muito corruptos, segundo o Ibope), é porque ela vem sendo exercida (por meio de várias reeleições) muito mais por integrantes das classes degeneradas que por componentes da classe exemplar. Uma forma simples de não incentivar a degeneração do político é acabar com a possibilidade de reeleição (proibindo-se também que algum parente dele seja seu imediato sucessor na política). Se pai e filho querem ser políticos, que concorram concomitantemente, nunca sucessivamente (um ao outro) (veja nossa petição eletrônica nesse sentido: fimdopoliticoprofissional.com.br).

A classe política, representante teoricamente de todas as classes, mas compostas fundamentalmente das camadas “superiores”, está repleta de degenerados. Isso comprova que os degenerados estão em todas as classes sociais. Constitui, portanto, um erro tosco e abominável identificar as classes degeneradas com as classes economicamente desfavorecidas, as chamadas depreciativamente de plebe. Não menos equivocada é a ideia de que exemplares são as classes sociais mais elevadas. Nada mais preconceituoso, discriminatório e grosseiro. Essa concepção profana das classes sociais, aliás, é aberrante. Os degenerados assim como os exemplares estão em todas as classes sociais (A, B, C, D e E). Formam sub-grupos, extraídos de todas elas.

De onde vem o preconceito contra as classes economicamente degradadas? Vejamos: primeiro tentou-se dividir as sociedades em raças (branca, negra, mulata, cabocla, cafusa etc.). Hoje se sabe, depois do Projeto Genoma, que todos pertencemos, biologicamente falando, a um tronco comum (nós e os macacos temos poucas diferenças no DNA). Para os que partem do pecado original de Adão e Eva a conversa ganha outra dimensão.

Alguns europeus (sobretudo do século XIX, destacando-se o caso do engenheiro ferroviário Spencer, do embaixador Gobineau etc.), completamente ignorantes da nossa constituição genômica, dividiram o mundo em raças inferiores (as classes sociais proletárias europeias e os colonizados nas Américas e na África) e raças superiores. O branco europeu ocuparia o patamar máximo da superioridade humana (daí estar autorizado a subjugar os proletários e a “colonizar” as regiões atrasadas e inferiores do planeta; e realmente fizeram isso, mediante incontáveis genocídios “educativos” e “catequizadores”).

A divisão entre seres superiores e seres bárbaros decorreria de uma evolução natural (da espécie humana). Fala-se aqui em darwinismo social (mas Darwin não tem nada a ver com isso – veja Zaffaroni 2012, 93). Civilizados são todos (de acordo com a visão preconceituosa) os que pertencem à categoria do homem europeu proprietário, branco, adulto, corporalmente são, livre e de orientação sexual masculina. Os demais seriam todos bárbaros e/ou inferiores (daí a luta sem fim, já secular e que não tem dia para terminar, das mulheres, dos não proprietários, dos negros e índios, das crianças, dos portadores de deficiência, dos escravizados ou em servidão, dos que seguem outras orientações sexuais etc.). O dilema entre barbárie e civilização ainda não acabou porque muitos “civilizados” pensam e agem barbaramente.

*LUIZ FLÁVIO GOMES é Jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Estou no professorLFG.com.br
Fonte IAB Instituto Avante Brasil 
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