"Todos queremos um mundo melhor e este mundo melhor chegará através daqueles que além de o idealizarem, movimentarem as palhas desta grande construção". (Mário Carabajal)
Lendo o noticiário do fim de semana, alguns blogs, revistas e alguns comentários deixados por leitores aqui no blog; percebi como o brasileiro confunde coisas aparentemente inconfundíveis e teima em cobrir com o manto da ideologia tudo o que possa provocar um desconforto em suas convicções mais arraigadas. Mesmo que atos atrozes sejam cometidos e atitudes imperdoáveis sejam mostradas repetidamente, como um padrão indesejável, o brasileiro “empurra com a barriga” provas e evidências para baixo do tapete. Muito desse comportamento pode ser creditado a uma infantilidade ou a uma falta de valores cívicos e éticos bem definidos. Afinal de contas, os nazistas, tentaram justificar atrocidades bárbaras com o cumprimento de ordens.
O mesmo acontece com os brasileiros. Por terem uma visão ideológica mais à esquerda ou mais à direita; computam os deslizes e as barbaridades cometidas pelos seus “ídolos” aos inimigos. E, por tabela, quem aponta essas falhas ou critica esses ídolos, está certamente a serviço “do outro lado”.
Pseudoconquistas e avanços débeis ou robustos jamais podem justificar violações graves ou leves da ética, da moralidade (não do sentido banal e religioso da coisa) e dos direitos do cidadão. Além disso, permitir que até mesmo a humanidade, a compaixão e a solidariedade sejam submissas ao tacão ideológico é uma imbecilidade. Até porque, hora ou outra, essas mesmas violações se voltarão contra você e esmagarão seus sonhos e anseios ideológicos com mãos e pés de ferro. Foi assim nas revoluções de esquerda e de direito ao redor do mundo e ao longo da história humana. Quem não se lembra dos revolucionários franceses que acabaram decapitados pela mesma guilhotina que usavam contra a “realeza”? Quantos proletários não foram fuzilados pelos regimes socialistas e pelos mesmos pelotões que, dias antes, haviam fuzilado os “burgueses insensíveis e aproveitadores”? Quantos generais e colaboradores não foram mortos pelos regimes de direita que ajudaram a erguer e a manter com tanto zelo e com tanto afinco para deter “o comunismo” que os ameaçava?
Falta ao brasileiro a semente do discernimento. Falta ao brasileiro entender que ao mentir ou se omitir um governante perde a dignidade de ser confiável. Falta ao brasileiro entender que o “rouba, mas faz” não pode ser tolerado e que seus praticantes e profetas devem ser banidos e execrados a todo custo. Falta ao brasileiro entender que a corrupção, o erro e a incompetência são elementos inerentes à raça humana e, mesmo os grande líderes e os ídolos ideológicos, podem cometer esses erros e devem pagar por eles sejam quais forem as suas virtudes. Falta ao brasileiro dar a cara à tapa e se colocar no lugar do desassistido, do abandonado, do que sofre e não hipocritamente em seu âmago pensar: “antes ele do que eu”.
Mas, como mudar? Como alterar essa mentalidade e dar a maturidade necessária ao brasileiro para que ele viva plenamente e compreenda o papel que cada cidadão tem numa sociedade e o peso que a palavra “cidadão” tem? Muito simples: Educação.
No entanto, essas mesmas leituras do fim de semana me deram uma triste visão de nosso futuro como nação. Basta saber que, de todos os estudantes que prestaram vestibular no país, cerca de meros 2% desejam ser professores. Além disso, destes, 30% são considerados estudantes medíocres e com notas extremamente baixas. Ou seja, diante deste quadro e da crescente diminuição dos interessados na carreira de professor; a educação no Brasil tende a ficar ainda pior. Somos hoje uma nação com 74% de analfabetos funcionais, habitantes incapazes de compreender um texto com algumas linhas a mais (números do próprio MEC). Isso é estarrecedor e põe “em cheque” qualquer conquista econômica ou social que se tenha conseguido nos últimos trinta anos. Uma vez que, no futuro, o país não será capaz de mantê-las ou de aprimorá-las. Para um país se tornar uma potência ele tem que ter muito mais do que crédito ou do que disputas vazias do tipo “o meu é maior do que o seu” ou “eu fiz mais que você”. Para ser a potência que anseia e merece, o Brasil tem que amadurecer e ser capaz de gerar governantes e povo que pensem no que é melhor para o país e que façam sempre mais do que já foi feito. Independente da ideologia, um deve suceder o outro, tendo em vista unicamente a melhoria do cidadão; o engrandecimento da nação e o respeito aos valores éticos, morais e aos direitos inalienáveis do cidadão.
O cidadão, por sua vez, deve entender que é dele a responsabilidade por cobrar as mudanças. É dele o poder e o dever de punir os maus políticos e de não se deixar cegar pela ideologia. Ter o entendimento que permitir “pequenos deslizes” equivale a permitir também os grandes é uma maturidade que o brasileiro deve buscar. Mesmo que os políticos tentem dizer o contrário.
Um exemplo claro disso foi dado pelo prefeito de São Sebastião (SP) que, ao ser questionado por um cidadão sobre mudanças gritantes em um orçamento de uma obra taxou a denúncia como “coisa de quem não tem o que fazer”. Em suas próprias palavras: “Um monte de gente que não faz nada na vida fica escrevendo blog. Será que não tem nada mais útil para fazer? Eu tenho mais o que fazer”. (Caso brilhantemente contato pelo Márlio em seu blog PtusGrilo.com)
Esse tipo de pensamento é bem parecido com aqueles emitidos por Lula em relação ao Mensalão, por FHC em relação às privatizações, por Sarney em relação às falcatruas supostamente cometidas por ele e muitas outras “figuras ilibadas” de nossa política.
Esse nível de despreparo e de falta de compromisso com a verdade e com o cidadão só se perpetua com o apoio de uma legião de pessoas incapazes de desvincularem-se de suas ideologias e olharem além das luzes ofuscantes das “verdades imutáveis e supremas” pregadas por essas personalidades e por seus partidos.
Ao cidadão cabe pensar, julgar, opinar e, principalmente, não permitir que erros e deslizes (por mínimos que sejam) se perpetuem na impunidade. Sejam quais sonhos e ilusões tenhamos que perder nesse processo. Ao cidadão cabe exercer a sua cidadania e compreender o que realmente essa palavra quer dizer e o seu pleno alcance.
Sem essa mudança de visão e esse amadurecimento; continuaremos escravos da mediocridade, entregues ao abandono e vendo, cada geração que se segue a nossa, deteriorar-se e perder cérebros, valores e futuro.
Pense nisso.
Fonte: Visão Panorâmica
