João Batista Soares, presidente do CRM/MG: “Eu não disse que eu não disse!”
Vi o Mundo
por Conceição Lemes
No meio desta tarde de sexta-feira 23, recebi este e-mail de Ana Reis, médica que sempre trabalhou com Saúde Coletiva:
Você já viu isto? A meu ver trata-se de
um caso explícito de incitação à omissão de socorro, salvo
inautenticidade da matéria jornalística, o que requiriria imediata
negação.
Junto veio o link para o texto que reproduzo abaixo [os grifos em vermelho são meus]:
Ana Reis se referia, especificamente, ao trecho: “Vou orientar meus
médicos a não socorrerem erros de médicos cubanos”, diz presidente do
CRM/MG.
João Batista Gomes Soares, crítico ferocíssimo do programa Mais Médicos, é o presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM/MG).
Essa declaração de João Batista, que está hoje em vários sites,
deixou Ana Reis tão indignada que ela encaminhou denúncia ao Conselho
Federal de Medicina (CFM) para que apurasse. Justificativa: A omissão de
socorro é vedada pelo Código de Ética e punida pelo Código Penal.
“Um presidente de Conselho não pode incitar os colegas à omissão de
socorro!”, condena Ana. “No caso de atendimento por charlatães, o que
não é o caso dos médicos estrangeiros, não se pode socorrer uma pessoa
vítima de prática enganosa? Onde já se viu isso?!”
“E quanto aos 54,5 % de reprovados no exame de 2012 do Cremesp, que
receberam autorização para exercer a Medicina, e cobram o exame para
revalidação dos estrangeiros?!”, detona Ana. “Em defesa da integridade
da população e do direito à assistência médica de qualidade, não se pode
ter dois pesos e duas medidas.”
Em defesa da integridade da população e do direito à assistência
médica de qualidade, não se pode ter dois pesos e duas medidas.”
Entrevistei, então, o presidente do CRM/MG sobre o Mais Médicos, incluindo as suas declarações.
Viomundo — Por que é contra a vinda dos médicos cubanos?
João Batista Soares — Essa questão da vinda de
qualquer médico para o Brasil, seja ele cubano ou não, é que ele cumpra o
que está na lei de diretrizes e bases. Então, se eles cumprirem a
legislação, nós não somos contra. Nós somos contra se eles vem sob
medida provisória. É função do conselho fiscalizar o exercício da
medicina.
Viomundo — O senhor disse que se ouvir dizer que tem médico
cubano atuando em Nova Lima, por exemplo, vai mandar lá uma equipe de
fiscalização.
João Batista Soares — Nós vamos fazer isso em todas
as regiões de Minas. Em todos os locais que a gente souber que tem
médico cubano, nós vamos mandar a fiscalização, mas sem hostilização.
Viomundo — Mas disse que se o médico cubano não tiver o
diploma revalidado no Brasil e registro no CRM-MG, vai à delegacia
denunciá-lo.
João Batista Soares –É exercício ilegal de
medicina. Qualquer cidadão que exerce medicina sem registro no
Conselho Regional de Medicina, nós denunciamos. Nós vamos denunciá-los
[os cubanos] por exercício ilegal da medicina, da mesma forma que
fazemos com charlatães e curadeiros.
Viomundo — Se isso acontecer, o que vai fazer?
João Batista Soares –Eu vou à delegacia fazer uma ocorrência policial, que é o que a gente faz normalmente. Nós já tivemos prisão de falsos médicos.
Viomundo — Mas eles são médicos!
João Batista Soares — Mas não estão dentro da nossa legislação.
Viomundo — O senhor disse também que irá orientar os seus médicos a não socorrerem erros de médicos cubanos.
João Batista Soares — Aí, houve uma interpretação um
pouquinho superficial. Quando você pega um caso que já foi atendido por
uma outra pessoa que você não sabe que é médico, você não é obrigado a
assumir aquelas complicações. Evidentemente que você vai atender o
paciente, mas vai esclarecê-lo que qualquer complicação advinda daquela
complicação não é de sua responsabilidade. Porque você pegou o caso já
num estágio avançado. Esse é o sentido.
Viomundo — Daria para ser um pouquinho mais claro?
João Batista Soares — O médico cubano atende um
paciente na unidade básica de saúde com diarreia. Em Cuba, esses casos
são tratados como diarreia. Então, ele trata como diarreia. Ele não
consegue exame adequado e o diagnóstico de que aquilo é uma apendicite.
Nesse meio tempo, aquilo [o apêndice] inflama na barriga do indivíduo,
supura e inflama toda a barriga dele. Dá o que a gente chama de
peritonite.
Na hora em que for operar esse paciente o risco é muito maior. Eu
vou ter que operar, mas vou ter que esclarecê-lo que o risco dele é
muito maior. Também que o que ocorreu até aquele momento não é
responsabilidade minha. Eu me isento daquela responsabilidade. Eu
registro isso.
O risco que ele vai correr muito aumentado pelo atraso do diagnóstico
não é problema meu, mas eu tenho de operá-lo. Quando acontece com um
médico brasileiro, registrado, o paciente vem e denuncia no Conselho.
Nós apuramos aqui e punimos esse médico.
E quando acontecer com esse indivíduo [médico cubano] que vem de lá
sem cumprir as normas, como é que nós vamos fazer? Como esse indivíduo
vai indenizar civilmente o paciente se ele não tem patrimônio?
Viomundo — Está dizendo que não disse que vai orientar os seus médicos a não socorrerem erros de médicos cubanos?
João Batista Soares – Eu não estou dizendo que eu não disse. Eu estou dizendo que a interpretação é esta.
Viomundo — O senhor disse mesmo que vai orientar os seus médicos a não socorrerem erros de médicos cubanos?
João Batista Soares – Disse, mas a interpretação é outra, é sobre a responsabilidade.
Fonte Vi o Mundo
Saiba mais
OS MÉDICOS CUBANOS, O BARÃO DE ITARARÉ E O GRANDE BARDO
O ano
é 1930. As tropas insurgentes de Getúlio Vargas vêm do RS para tentarem
tomar a capital federal (Rio de Janeiro). Os efetivos leais ao
presidente que elas querem depor, Washington Luiz, esperam-nas na cidade
de Itararé, divisa entre SP e PR. Canta-se em prosa e verso aquela que
será a mais formidável e sangrenta das batalhas.
Mas, nem um único tiro é disparado: antes, o presidente bate em retirada, entregando o poder a uma junta governativa.
Ironizando, o grande humorista Aparício Torelly escreve que, como nada
lhe reservaram no rateio de cargos governamentais entre os vencedores,
ele próprio se outorgaria a recompensa:
"O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve".
Uma batalha que não houve é
o desfecho para o qual se encaminha a pendenga entre associações
médicas e o Governo Federal, pois inexiste qualquer base legal para elas
se queixarem à Justiça ou chamarem a polícia, numa retaliação
corporativa corporativa à importação de profissionais cubanos. É tudo blefe, dos mais patéticos.
Se algum energúmeno tentar, vai perder e se desmoralizar. Ponto final.
Quanto ao presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais,
João Batista Gomes Soares, que prometeu orientar os médicos do Estado a
não corrigirem eventuais erros dos cubanos, está simplesmente
aconselhando-os a incorrerem no crime de omissão de socorro.
Merece não só perder a boquinha,
como ser excluído da profissão e até processado criminalmente. Ao invés
do juramento de Hipócrates, segue o juramento de hipócrita, colocando
as suas pirraças acima da integridade física e até da vida dos
pacientes.
No que tange ao xis do problema, o Ministério da Saúde deveria ter
encaminhado o assunto de uma forma mais perspicaz, exortando as
entidades médicas a assumirem o compromisso de garantir o atendimento
dos coitadezas dos grotões, dentro das disponibilidades orçamentárias da
Pasta.
Se prometessem e cumprissem, maravilha.
Se alegassem ser-lhes impossível fornecer tal garantia, então não teriam
moral para criar empecilhos à solução alternativa que as autoridades
resolvessem adotar. Simples assim.
Sendo leigo em medicina, não me porei a discutir se os cubanos estão ou
não suficientemente qualificados para cuidar de cidadãos brasileiros.
Mas, pragmaticamente, as pessoas sem antolhos ideológicos decerto
concluirão que a presença de quaisquer médicos nas comunidades carentes é
melhor do que deixá-las em completo abandono. Se os doutores caribenhos
se dispõem a trabalhar nas mesmas condições que os mercenários
brasileiros recusam, então temos mais é de ser-lhes gratos. Simples
assim... de novo!
Além da batalha de Itararé,
este vergonhoso episódio e o destaque desmesurado que lhe é dado pela
imprensa canalha me fez lembrar Shakespeare: trata-se de muito barulho por nada elevado à enésima potência...
Fonte Náufrago da Utopia
Médicos cubanos dizem que vieram ao Brasil 'por solidariedade, não por dinheiro'
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Médicos cubanos dizem que vieram ao Brasil 'por solidariedade, não por dinheiro'
"Nós somos médicos por vocação e não por dinheiro. Trabalhamos porque
nossa ajuda foi solicitada, e não por salário, nem no Brasil nem em
nenhum lugar do mundo", afirmou o médico de família Nélson Rodríguez,
45, ao desembarcar no Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife
(PE).
Primeiros médicos cubanos do programa Mais Médicos desembarcam no aeroporto internacional do Recife (PE) neste sábado
BRUNO BASTOS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DO RECIFE
Os primeiros médicos cubanos que desembarcaram no Brasil para participar do programa Mais Médicos, do governo federal, disseram neste sábado que não sabem quanto receberão pelo trabalho e que vieram "por solidariedade, e não por dinheiro".
"Nós somos médicos por vocação e não por dinheiro. Trabalhamos porque nossa ajuda foi solicitada, e não por salário, nem no Brasil nem em nenhum lugar do mundo", afirmou o médico de família Nélson Rodríguez, 45, ao desembarcar no Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife (PE).
Padilha defende chegada de médicos cubanos
Conselho diz que negará registro a estrangeiro
Associação médica vai ao STF contra Mais Médicos
Ele disse que a atuação dos profissionais no Brasil seguirá as ações executados em países como Haiti e Venezuela, onde já trabalhou. "O sistema de saúde no Brasil é mais desenvolvido que nesses outros países que visitamos, então poderemos fazer um trabalho até melhor na saúde básica", afirmou.
À imprensa, outros médicos que deram entrevistas concordaram com o colega. Todos eles falaram "portunhol" --afirmaram que tiveram contato com o português quando trabalharam na África ou por terem amigos que já trabalharam no continente.
Natacha Sánchez, 44, que trabalhou em missões médicas na Nicarágua e na África, disse que os cubanos estão preparados para o trabalho em locais com "condições críticas" e que pretendem trabalhar em conjunto com os médicos brasileiros. Ela afirmou não ter conhecimento das críticas feitas pelo Conselho Federal de Medicina ao programa Mais Médicos.
Os médicos cubanos desembarcaram vestindo jaleco, com bandeiras do Brasil e de Cuba. Eles foram escoltados por homens do Exército e da Marinha durante os procedimentos de imigração e alfândega, de onde seguiram em vans para alojamentos das Forças Armadas. Quatro deles foram levados para uma sala e conversaram com jornalistas.
O voo dos cubanos pousou por volta das 14h. Em um avião fretado da empresa Cubana, vieram 206 médicos. Desses, 30 ficarão em Pernambuco e os outros irão ainda hoje para Brasília.
Amanhã, outro grupo de 194 médicos chega em voos que farão escalas em Fortaleza, Recife e Salvador.
Eles ficarão hospedados em instalações militares durante o treinamento do programa, até serem deslocados para os municípios onde irão atuar.
A expectativa do governo é que, até o final do ano, mais 3.600 médicos cubanos desembarquem no Brasil.
Além dos cubanos, vão desembarcar até amanhã outros 244 médicos estrangeiros e brasileiros com registro profissional no exterior que se inscreveram na primeira etapa do Mais Médicos.
Fonte: Folha de S. Paulo
Médicos cubanos no Brasil
Primeiros médicos cubanos do programa Mais Médicos desembarcam no aeroporto internacional do Recife (PE) neste sábado
BRUNO BASTOS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DO RECIFE
Os primeiros médicos cubanos que desembarcaram no Brasil para participar do programa Mais Médicos, do governo federal, disseram neste sábado que não sabem quanto receberão pelo trabalho e que vieram "por solidariedade, e não por dinheiro".
"Nós somos médicos por vocação e não por dinheiro. Trabalhamos porque nossa ajuda foi solicitada, e não por salário, nem no Brasil nem em nenhum lugar do mundo", afirmou o médico de família Nélson Rodríguez, 45, ao desembarcar no Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife (PE).
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Ele disse que a atuação dos profissionais no Brasil seguirá as ações executados em países como Haiti e Venezuela, onde já trabalhou. "O sistema de saúde no Brasil é mais desenvolvido que nesses outros países que visitamos, então poderemos fazer um trabalho até melhor na saúde básica", afirmou.
À imprensa, outros médicos que deram entrevistas concordaram com o colega. Todos eles falaram "portunhol" --afirmaram que tiveram contato com o português quando trabalharam na África ou por terem amigos que já trabalharam no continente.
Natacha Sánchez, 44, que trabalhou em missões médicas na Nicarágua e na África, disse que os cubanos estão preparados para o trabalho em locais com "condições críticas" e que pretendem trabalhar em conjunto com os médicos brasileiros. Ela afirmou não ter conhecimento das críticas feitas pelo Conselho Federal de Medicina ao programa Mais Médicos.
Os médicos cubanos desembarcaram vestindo jaleco, com bandeiras do Brasil e de Cuba. Eles foram escoltados por homens do Exército e da Marinha durante os procedimentos de imigração e alfândega, de onde seguiram em vans para alojamentos das Forças Armadas. Quatro deles foram levados para uma sala e conversaram com jornalistas.
O voo dos cubanos pousou por volta das 14h. Em um avião fretado da empresa Cubana, vieram 206 médicos. Desses, 30 ficarão em Pernambuco e os outros irão ainda hoje para Brasília.
Amanhã, outro grupo de 194 médicos chega em voos que farão escalas em Fortaleza, Recife e Salvador.
Eles ficarão hospedados em instalações militares durante o treinamento do programa, até serem deslocados para os municípios onde irão atuar.
A expectativa do governo é que, até o final do ano, mais 3.600 médicos cubanos desembarquem no Brasil.
Além dos cubanos, vão desembarcar até amanhã outros 244 médicos estrangeiros e brasileiros com registro profissional no exterior que se inscreveram na primeira etapa do Mais Médicos.
Fonte: Folha de S. Paulo
Leia também:
Médicos cubanos no Brasil
Se não chegam médicos cubanos, o que dizer à população desassistida de
nossas periferias e do interior? Que suporte as dores? Que morra de
enfermidades facilmente tratáveis? Que peça a Deus o milagre da cura?
A rebelião dos médicos contra o
povo.
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