Recentemente, a presidente Dilma afirmou ser uma “barbárie” a violência dos Black Blocs. Nas décadas de 60 e 70, não se falava em ”barbárie”, mas em “terrorismo”. Seguramente, haverá os que dirão: “mas os que pegaram em armas lutaram por Democracia”. E pelo que lutam os Black Blocs, senão pelo que entendem ser uma real Democracia, contra o que percebem ser uma falsa Democracia?
por Antônio David, especial para o Viomundo
Este artigo só poderá ser compreendido por quem entende a diferença entre justificar e explicar.
O objetivo desses parágrafos não é justificar a ação dos Black Blocs,
mas tentar explicar por que os Black Blocs existem e por que agem como
agem. Não tem por objetivo defender que os Black Blocs estejam certos ou
errados, muito menos que sejam bons ou maus. Se os Black Blocs têm
razão ou não têm razão, deve-se, antes, procurar suas razões, sejam elas justas ou não.
Aqui, parte-se de um pressuposto: se os Black Blocs ganham cada vez
mais corpo e projeção (é uma hipótese), deve haver razões para tanto,
razões que estão inscritas na sociedade e que, portanto, vão além desse
ou daquele indivíduo. Não se trata aqui de dizer que os Black Blocs não
devam ser criticados. Trata-se de dizer que, para criticar, é preciso antes entender.
Partindo de impressões empíricas e elocubrações especulativas, meu
objetivo não é estabelecer a verdade, mas estabelecer hipóteses, a fim
de ensejar a discussão.
1. Black Blocs são majoritariamente moradores de periferia de grandes
centros urbanos. São jovens, não raro muito jovens. Muitos são negros.
Em sua maioria, trabalham ou dividem seu tempo entre trabalho e estudo.
Não são marginais, mas trabalhadores.
2. Os Black Blocs sentem um profundo ódio. Sua conduta é sintoma da
experiência de vida, marcada pela violência e opressão rotineiras na
escola, no trabalho, no contato cotidiano desde a infância com todo tipo
de impulso ao consumo (isso também é violência!), no relacionamento com
a PM, que sistematicamente comete todo tipo de abusos sob o amparo do
Estado e a certeza da impunidade. Não há como entendê-los ignorando sua
experiência de vida.
3. Black Bloc não é uma organização. Tampouco reduz-se a mera tática.
É, antes de tudo, expressão da agudização do nível de revolta de uma
fração da classe trabalhadora no Brasil. Fruto em última instância das
transformações recentes do capitalismo e do Estado no Brasil, trata-se
de um produto histórico.
Não faz sentido enquadrar os jovens nele engajados em categorias como
“aspirantes”, “militantes”, “quadros intermediários”, “dirigentes”.
Eles não foram “recrutados”. Se o movimento não é espontâneo na medida
em que tem uma história, é espontânea a atitude de quem nele se engaja:
vestir-se de preto, tomar as ruas e agir. Qualquer um pode ser Black
Bloc na manifestação de amanhã.
4. Por isso, os Black Blocs não devem ser encarados pelas
organizações de esquerda como se fossem outra organização concorrente,
mas sim como uma fração da própria classe trabalhadora que, espontânea e
livremente, colocou-se em ação.
5. Se os Black Blocs são o que supostamente não deveriam ser, ou se lhes falta o que supostamente deveriam
ter, a existência de um número não inexpressivo e, ao que tudo indica,
crescente de jovens da classe trabalhadora que se sentem atraídos pela
estética Black Bloc está ligada ao fato de que estes jovens olham para a
esquerda e nada vêem ou, se vêem, sentem desprezo. Se eles estão certos
ou errados, é outra coisa. O que importa é que eles têm suas razões.
Cabe a esquerda procurar compreendê-las.
6. Senão todas, muitas das críticas que as organizações de esquerda
fazem aos Black Blocs, se levadas à radicalidade, deverão conduzir a uma
autocrítica. Do ponto de vista da esquerda, a existência dos Black
Blocs é sintoma das limitações de suas organizações tradicionais, que em tese deveriam
organizá-los – pois, tendo estratégia e programa, tais organizações
supostamente sabem responder à pergunta “como organizar a revolta?” -,
mas ou não conseguem (algumas têm razões para tanto), ou não têm interesse. A esquerda não os organizou; eles se auto-organizaram (numa não-organização).
7. Por isso, soam patéticas e ridículas todas as críticas aos Black
Blocs que postulam o que eles “deveriam” ou “não deveriam” fazer, o que
“deveriam” ou “não deveriam” pensar, o que “deveriam” ou “não deveriam”
ser.
8. Com ou sem Black Blocs, manifestações de rua no Brasil são
potencialmente violentas porque a PM pratica sistemática e
deliberadamente todo tipo de abuso em manifestações, inclusive
infiltrando agentes (P2) para provocar tumulto - embora as semanas que
sucederam os acontecimentos de junho tenham criado a aparência (mera
aparência!) de uma mudança de atitude por parte da PM. A novidade é que,
agora, há reação(*).
9. A força da burguesia está no dinheiro, na mídia e na polícia. A
força dos trabalhadores está no número. Se a força dos Black Blocs ainda
é muito pequena, na medida em que ainda não passam de algumas
dezenas, esse dado pouco importa diante de seu potencial de crescimento.
A questão é: os Black Blocs tendem a crescer rápida e continuamente?
Não se deve duvidar disso.
10. Repleta de limitações, contradições e desvios, a Democracia é uma
conquista da classe trabalhadora. Mas a presença dos Black Blocs,
atraindo cada vez mais adeptos e simpatizantes, é sintoma das limitações
da democratização da sociedade e do Estado no Brasil, no que se inclui a
impermeabilidade de um sistema repressivo herdado da ditadura.
A sociedade brasileira é recortada de cima a baixo pela violência,
uma violência costumeira e brutal, com a qual nossa Democracia convive
bem. Na ausência de outros meios para fazer frente à violência no sentido de suprimi-la,
criam-se espontaneamente meios (violentos) e com eles se reage (com
violência) à violência sofrida. A estética Black Bloc é, pois, um destes
meios.
11. Só a violência pode fazer frente à violência? Não.
Também a política pode fazer frente à violência. Mas se é verdade que
a política não está impossibilitada, o fato é que os jovens engajados
na estética Black Bloc, percebem a política como estando bloqueada.
O ponto é que são muitos os que compartilham dessa percepção – e estes são Black Blocs em potencial.
Certos ou errados, inteligentes ou ignorantes, bons ou maus, o ponto é
que eles todos têm suas razões. Aqui, novamente, a crítica das
organizações de esquerda aos Black Blocs por conta de sua recusa à
política, se levada à radicalidade, deverá conduzi-las à autocrítica.
12. Há uma enorme verdade no clamor do ex-presidente Lula: “façam
política”. Ao mesmo tempo, a recomendação não deixa de soar como uma
autocrítica, afinal, seus oito anos de governo não foram exatamente
mobilizadores. Mas logo se vê que a intenção parece ser diametralmente
oposta à autocrítica, pois “fazer política” não é outra coisa senão
baixar as armas, filiar-se a um partido e engajar-se na luta eleitoral.
Bem vistas as coisas, o imperativo “façam política” participa do
esforço latente generalizado de ignorar as razões que levam tantas pessoas à recusa da política.
13. A crítica de que os prejuízos causados pela ação dos Black Blocs
são insignificantes só pode vir de quem não entendeu nada. Os Black
Blocs não destroem o patrimônio privado com o intuito de causar
prejuízo. A natureza de suas ações é estética. A luta é sobretudo
simbólica e ideológica. O objetivo é pedagógico: alimentar na sociedade o
ódio de classe e a reação aos abusos promovidos pelo Estado.
É como se, ao quebrar o vidro de um banco, um recado fosse dado:
“Reajam!”. Mas, como já se comprovou em outros momentos históricos, a
realização desse objetivo encontra limitações em determinações culturais
ligadas à formação do Brasil. Também a classe dominada guarda traços
conservadores profundamente enraizados.
14. As situações de conflito derivadas da presença dos Black Blocs na
conjuntura tende a legitimar, aos olhos da população, inclusive entre
os trabalhadores, a repressão policial e a ideologia da ordem. Sobretudo
a considerar o aparato de propaganda controlado pela mídia televisiva,
da qual, paradoxalmente, de alguma maneira os Black Blocs dependem. É
provável que o esforço de alimentar o ódio de classe funcione para uma
parte da sociedade; o efeito colateral é que o fascismo também sairá
fortalecido.
15. A considerar a correlação de forças atual, o enfrentamento provavelmente terá um resultado desfavorável para a classe trabalhadora, ao menos no curto e médio prazos.
As ruas, espaço vazio deixado pela esquerda e ocupado pelos Black
Blocs, já está sendo ocupado também pela direita. A sociedade
brasileira carrega traços protofascistas, e a classe média não terá
pudor em assumir abertamente sua veia fascista, acompanhada de amplo
setor popular. A tendência é a rotinização administrada da revolta. Se
no curto prazo a repressão desregulada vencer, corre-se o risco de no
longo prazo sobrarem apenas cacos para serem reunidos.
16. Mas se a luta eleitoral e parlamentar não são suficientes e o
enfrentamento da abissal desigualdade no Brasil exige polarização nas ruas, e se a polarização nas ruas parece
ser inevitável, o fato é que os Black Blocs disputam e cada vez mais
disputarão o espaço (vazio) de vanguarda da polarização nas ruas.
Sobretudo quando se considera que os Black Blocs atraem o elo mais
fraco da cadeia do trabalho e são um dos únicos sujeitos políticos que
têm coragem de enfrentar a polícia.
17. Quanto mais o sistema os perseguir, intimidar, criminalizar, mais
os Black Blocs crescerão, pois a causa de sua força é o ódio e o desejo
de justiça, e essa fonte tornou-se nos dias atuais fecunda e
inesgotável, pelo encontro entre a administração fascista das
periferias, as expectativas criadas pela ascensão social promovida na
última década e a intensificação da exploração do trabalho.
18. Experiência é aprendizado. Os acontecimentos recentes têm sido um
aprendizado para os Black Blocs. Talvez a contragosto, mas sob a
necessidade de se defenderem, não surpreenderá se os Black Blocs se
organizarem. Com isso, poderão assumir conscientemente uma estratégia.
Suas energias poderão ou não convergir com as das organizações de
esquerda.
19. Provavelmente os Black Blocs crescerão. Mas, crescendo ou não, e
mesmo que os Black Blocs não cresçam, mesmo que sumam, de uma maneira ou
de outra os jovens hoje engajados na estética Black Bloc
inevitavelmente formarão quadros importantes para a luta social no
Brasil. Não importa que escolha façam, se acertarão ou errarão, o fato é
que terão relevância na conjuntura política.
Em tempo: recentemente, a presidente Dilma afirmou ser uma “barbárie”
a violência dos Black Blocs. Nas décadas de 60 e 70, não se falava
em ”barbárie”, mas em “terrorismo”. Seguramente, haverá os que dirão:
“mas os que pegaram em armas lutaram por Democracia”. E pelo que lutam
os Black Blocs, senão pelo que entendem ser uma real Democracia, contra o
que percebem ser uma falsa Democracia?
(*) Relato de uma pessoa que estava no momento do conflito em São Paulo, no ato do Passe Livre do último dia 24 de outubro:
“Eu estava pouco antes desse momento,
realmente deplorável, tentando falar com o Coronel, arrogante. Ele e
outro soldado estavam pegando e anotando o RG de todos os manifestantes
que passavam e de quem chegava perto só pra perguntar o que estava
acontecendo ou para quem perguntava por que tinham detido uma menina que
não estava fazendo nada: qualquer manifestante era “fichado” por eles.
Apresentei-me como advogada e perguntei o motivo e finalidade desse
fichamento. O coronel foi debochado e recusou-se a responder. Insisti e
logo em seguida ele largou os RGs e partiu para cima de um garoto
vestido de black bloc que passava segurando um mastro, tipo pau de
bandeira. Avançou pra cima do garoto e começou a bater, mas acho que não
contava que todos que estavam em volta se revoltassem e partissem pra
cima dele pra ele largar o garoto. Depois disso não vi mais porque
estourou a confusão e saí de perto /…/” (publicado pelo Black Bloc SP).
Antônio David é estudante de pós-graduação em Filosofia na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH/USP).
Fonte Vi o Mundo
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