"Aquele foi um ato pedagógico que impulsionou a luta contra a corrupção em Mato Grosso"
Antônio Cavalcanti Filho, o Ceará (na
foto, à esquerda, ao lado de Francisco Whitaker, um dos coordenadores
nacionais do MCCE), é o mais emblemático dos militantes do movimento
contra a corrupção em Mato Grosso. Em 28 de outubro de 2009, Ceará concedeu à PÁGINA DO E a
seguinte entrevista:
PAGINA DO E - Os episódios de corrupção na Assembléia já causaram
maior indignação popular. Tanto que, no passado, já tivemos uma Lavagem
da Assembléia, por conta das denuncias do Ministério Público contra as
roubalheiras atribuidas ao Riva, Bosaipo e todo o seu grupo. Como é que
surgiu esta proposta?
ANTONIO CAVALCANTE, CEARÁ - Nessa época, na medida em que as
denúncias iam se tornando públicas, geraram um descontentamento, uma
indignação de populares, ao ponto de nós, do então Movimento Cívico de
Combate à Corrupção, as pessoas nos cobrarem nas ruas, nas praças, por
onde a gente passava, se a gente não ia fazer alguma coisa, tomar alguma
medida. É que os escandalos da Assembléia estavam em todas as
manchetes. A rede Globo fez sucessivas matérias sobre o assunto. O
episódio das calcinhas virou uma gozação nacional contra Mato Grosso.
Nos passamos, então, a ouvir diversas entidades, sindicatos,
associações, sobre a possibilidade de se unir forças no sentido de
demonstrar para o Brasil a nossa indignação e surgiu a idéia de se fazer
a lavagem simbólida da Assembléia Legislativa, em março de 2003.
PAGINA DO E - A imprensa daqui cobriu tanto este episódio quanto a imprensa nacional?
CEARÁ - Sim, os escândalos que envolveram o Arcanjo, as investigações
com relação ao comendador se foram aprofundando e mostrando que havia
esta conexão do desvio do dinheiro da Assembléia com as empresas do
Arcanjo. Reunimos, então, as entidades, partidos politicos, inclusive, o
PT, principalmente, quando o presidente era o hoje deputado Alexandre
César. Estavam lá, em nossas reuniões, o Sintep, a CUT, o Sindicato dos
Bancários, era nos bancários que nos reuníamos, inclusive, e havia as
pastorais sociais, associações de bairro, foi uma mobilização grande.
Havia toda uma cobertura da imprensa. Se você pesquisar nos jornais, vai
ver que o movimento teve muito espaço, até mesmo no plano nacional.
Para voce ver, demos entrevista ao vivo, no dia da Lavagem, para o Bom
Dia, Mato Grosso, da TV centro América e para o Bom Dia, Brasil, da Rede
Globo. Quem deu as entrevistas, naquele dia, fui eu, pelos movimentos
populares, e o Alexandre César, falando como presidente do Partido dos
Trabalhadores de Mato Grosso. Nós queriamos mostrar para o Brasil, que
nestas terras de Rondon não aceitavamos que nosso Estado demonstrasse
omissão de seus cidadãos diante daqueles fatos. Queriamos mostrar toda a
nossa indignação, cobrando das autoridades providências e o
aprofundamento das investigações e que os culpados fossem punidos,
efetivamente. Aquele era o sentimento de todos. Era uma ação da
cidadania, procurando despertar nos demais cidadãos deste Estado, esta
consciência crítica para acompanharem o que hoje já se tornou tão comum
através da proposta de controle social, da qual nos tornamos pioneiros.
PÁGINA DO E - E como foi o ato?
CEARA - Começou às 9 horas da manhã, numa segunda-feira. Chegamos a
fazer uma chamada, no horário nobre do domingo, na Rede Globo, durante o
horário do Fantástico. Distribuimos pela cidade cerca de 100 mil
panfletos convocatórios. Colocamos 20 out-doors pela cidade, tudo
financiado pelo fundo comum, sustentado pelas entidades e alguns
cidadãos. Fomos muito ousados e o povo respondeu a nosso apelo,
compareceu em massa, fechando a Barão de Melçao. Ficamos a manhã
inteira, das 9 nove às 11 horas, fazendo o ato público, com o microfone à
disposição das entidades. Houve um culto ecumênico e muita água, sabão,
desinfetante, vassouras, foram usados na entrada da Assembléia, com
ampla cobertura da imprensa. Os pronunciamentos foram feitos pelas
entidades, pelas pastorais, pelos sindicatos. Nenhum parlamentar
apareceu para falar. É uma pena que nosso movimento, sempre tão
improvisado, não tenha guardado uma memória deste momento. Mas a memória
está aí, no arquivo dos jornais, no arquivo da TV Centro América e
demais emissoras.
PÁGINA DO E - Seis anos se passaram. Hoje, em outubro de 2009, os
crimes denunciados pelo MP na Assembléia Legislativa continuam,
basicamente, impunes. O que se tem hoje é uma primeira sentença, de
primeira instância, que afastou o deputado Riva do comando
administrativo da Assembléia e suspendeu seus direitos politicos por 5
anos. Você acha que valeu a pena aquele ato?
CEARÁ - Apesar dos resultados tão lentos com relação à punição serem
frustrantes porque uma pessoa acusada de tantos crimes, acusada de
desvio de dinheiro público, falsidade ideológica, falsificação de
documentos públicos e privados e formação de quadrilha, continuou se
reelegendo deputado, continuou comandando a Mesa Diretora da Assembléia,
ora secretário geral, ora presidente. É muito pouco ver apenas esta
punição apenas administrativa. Por outro lado, o ato também serviu para
despertar nos cidadãos o exercício da cidadania, despertar esta
consciência de que o cidadão não é cidadão apenas no período eleitoral,
quando deposita seu voto seja lá no candidato de que partido for. Então,
esta formação de consciência no sentido da organização da sociedade
civil foi importante, é importante, porque por causa disto, em todo o
Estado, nos municipios, as pessoas estão se organizando, discutindo o
controle social, a cassação de prefeitos, vereadores, deputado federal,
são coisas que aconteceram depois graças a esta pressão dos cidadãos que
se organizam. Então, aquela manifestação serviu do ponto de vista
pedagógico. Então, aquela foi uma conquista para que a gente possa estar
avançando e efetivando, passo a passo, a conquista desta nossa
Cidadania. Durante todos estes anos, tem surgido outros grupos
preocupados com a questão da corrupção. Aqui em Cuiabá, temos o exemplo
da ONG Moral. Há vários outros, em vários municipios. As pessoas entram
em contato conosco, querendo saber como investigar, como fazer
representação contra políticos suspeitos. A partir daí, cidadãos comuns,
tendo conhecimento de corrupção em orgão públicos, tem nos passado
informações, documentos importantes. O caso da Chica Nunes, na Camara da
Cuiabá, foi um exemplo. Na mudança da Câmara, da Getúlio Vargas para a
antiga Assembléia, um cidadão que trabalhava no transporte das caixas,
encontrou alguns documentos que achou suspeitos, colocou num envelope e
depositou na frente da sede do Sintep, endereçada ao MCCE, fazendo então
uma ligação telefonica pra mim. Foi assim que começou a investigação
sobre a ex-vereadora Chica Nunes. Aqueles documentos apontavam indícios
de fraudes, de clonagem de notas, que acabaram levando à ação civil
publica que a Chica e o Lutero Ponce hoje respondem perante o Tribunal
do Justiça
PAGINA E - Passado todo este tempo, muita gente estranha que o
Alexandre César, por exemplo, que liderou aquela manifestação não esteja
hoje ao lado do MCCE na sustentação das denuncias contra a roubalheira
na Assembléia, sendo ele um deputado estadual. Voce tem conversado com
Alexandre, como é que voce avalia esta atitude?
CEARÁ - Não temos conversado com ele porque, desde a campanha dele
para prefeito, acabamos fazendo denúncias também contra ele por seu
envolvimento com a prática do Caixa 2. Isso nos distanciou bastante, ao
ponto de não termos nenhum contato mais. Mesmo assim, nada impediria que
ele, enquanto deputado mantivesse a coerencia com seu discurso de 2003,
quando fizemos a lavagem da Assembléia, acusando o Riva de vários
crimes. Isto tem servido para levar os cidadãos a desacreditar nos seus
representantes e nos seus partidos. O que vemos aí é que inimigos e
adversários de ontem são aliados hoje. Isto pode levar à crença
generalizada de que todos os politicos e partidos são farinha do mesmo
saco. Se de um lado pode levar as pessoas à desesperança, à apatia e ao
imobilismo, também, por outro lado, pode levar alguns cidadãos que
tenham a consciência crítica mais aguçada a abandonarem a militância
partidária e proporem até mesmo a necessidade de os cidadãos votarem
nulo e se absterem no processo eleitoral.
PAGINA E - Depois da condenação do Riva pelo juiz Bertolucci, o
deputado acena com um processo por danos morais contra seus pretensos
caluniadores e difamadores, voce entre eles. Como você acha que este
luta pela moralização da Assembléia irá se desdobrar?
CEARÁ - Para nós, náo é nenhuma novidade este tipo de pressão e
intimidação. Porque também, como consequencia da Lavagem da Assembléia,
em 2003, o mesmo deputado Riva, juntamente com o hoje conselheiro do
TCE, Humberto Bosaipo, eles entraram com uma ação por danos morais
contra mim. Esse processo tramitou durante uns três anos e eles mesmos,
talvez temendo que nós iríamos provar que em todas as denúncias que
fizemos não havia de forma alguma nenhuma calunia nem difamação mas
simplesmente a constatação, baseada em documentos, inclusive cópias de
cheques, etc, nós iriamos provar que estavamos apenas falando para a
sociedade de que haviam indícios robustos de que aqueles deputados
tinham de fato cometido diversos crimes contra os cofres públicos da
Assembléia. Isso aí não intimida. Ainda bem que hoje eles utilizam a
Justiça para pressionar e intimidar os que denunciam seus crimes. Os
criminosos organizados, no passado, usavam eram pistoleiros de alugueis
para responder àqueles que atentassem contra seus interesses escusos.
Como, de fato, já sofremos, ao longo destes anos, ameaças de morte,
invasão de nossa casa, espancamento de minha esposa, filhos, por
bandidos a mando daqueles que viram seus interesses serem atropelados
por nossa ação de cidadania. Nosso empenho hoje e para ver aprovada no
Congresso Nacional, o novo projeto de iniciativa popular que propõe que
os candidatos com ficha suja não possam mais ser candidatos a coisa
nenhuma neste país. A proposta teve mais de 1 milhão e 300 mil
assinaturas em todo o País e esperamos que os parlamentares não frustrem
este multidão de pessoas. É um absurdo que um político que roubou, que
matou, que estuprou, possa continuar se candidatando indefinidamente.
Esse absurdo é que nós estamos tentando corrigir, através de uma mudança
na Lei das Inelegibilidades e espero que valha ainda para as eleições
de 2010.
Cuiabá, 28 de outubro de 2009
Cuiabá, 28 de outubro de 2009
Fonte: Pagina do Enock
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