A ontologia do futebol é um mistério desde o tempo em que a bola era o crânio de um inimigo derrotado na Antiguidade chinesa, muito antes dessa diversão macabra se tornar um esporte aristocrático na Inglaterra do século 19.
Brasil de Fato
Por Felipe Carrilho*
Nesta
quinta, dia 12 de junho de 2014, às 17 horas, não será o Brasil que
entrará em campo contra a seleção da Croácia em Itaquera. A máxima
rodriguiana “a pátria em chuteiras” soa atualmente como papo
naftalínico. Do alto da eternidade, o mestre há de concordar comigo.
O
futebol está mundializado há décadas. Fico imaginando um rapazote de
vinte anos que entra adentra agora o mundo adulto, ou quase. Para ele, é
como se a democracia existisse desde a Criação. Um país chamado Brasil,
então, é um dado imemorial, nascido 40 minutos antes do nada.
O
sujeito acompanha a liga espanhola, ou inglesa ou alemã por meio de um
aplicativo que permite avaliar o desempenho jogo a jogo de seus ídolos. A
maioria deles, estrangeiros.
Outro dia, vi na televisão um
jornalista afirmar que “daqui a umas quatro ou cinco Copas do Mundo, vai
ter jogador na Seleção que não saberá falar português”. É possível. E
evito aqui a piada de que os de hoje já não sabem.
Não há nada
mais cafona do que o menosprezo do povo para com os atletas. Ainda mais
os de futebol – esse esporte tão popular –, e deste País – essa
categoria de pensamento tão desgastada.
Sim, Getúlio Vargas
enxergou no futebol uma ferramenta para implementar seus planos
políticos. Fazia discursos nacionalistas em São Januário e no Pacaembu,
os melhores estádios da época. Era a modernização do Brasil que estava
em jogo para o estadista.
Em 1970, a Seleção foi militarizada.
Sua vitória foi lida por muitos como a vitória do regime. Com o doutor
Sócrates, porém, a Democracia Corinthiana foi aos palanques das Diretas
Já clamar por eleições presidenciais nos anos 1980. O futebol era,
então, sinônimo de liberdade.
Ocorre que a ontologia do futebol é
um mistério desde o tempo em que a bola era o crânio de um inimigo
derrotado na Antiguidade chinesa, muito antes dessa diversão macabra se
tornar um esporte aristocrático na Inglaterra do século 19.
O
futebol é uma bola quicando dentro da área numa final de Copa do Mundo.
Cada um quer empurrá-la para uma direção e determinar o destino, mas a
imprevisibilidade do seu movimento é um feitiço e, ao mesmo tempo, a sua
realidade profunda. Quem acompanha o que se fala e se escreve sobre a
história desse esporte em terras tupiniquins sabe da nossa contribuição
peculiar.
O velho Gilberto Freyre dizia que transformamos “o jogo
britanicamente apolíneo” em “dança dionisíaca” por influência do samba e
da capoeira. Os chatos da contemporaneidade, no entanto, argumentarão
que não há “evidências empíricas” sobre isso. Mas quem assiste o futebol
com o coração sabe do que se trata.
Os antigos testemunharam a
magia de Domingos da Guia e Leônidas da Silva, ainda que eles tenham
perdido a Copa de 38. As seleções de 58, 62 e 70 combinaram eficiência
esportiva com prazer estético e levaram as três Copas. O escrete de 82
foi só deleite. Era o modo brasileiro de jogar em transe místico, que,
nas conquistas mais recentes esteve quase restrito aos pés de Romário,
Rivaldo e Ronaldo.
Hoje, em Itaquera, são onze cidadãos do mundo
que entrarão em campo para nos representar. Mas, sobre os ombros de
Neymar e companhia, estará pairando o fantasma do futebol brasileiro.
Para abençoá-los, torçamos. Amém.
*Felipe Carrilho é jornalista, historiador e autor do livro Futebol, uma Janela para o Brasil.
Fonte Brasil de Fato
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