sábado, 13 de março de 2010

Denúncias de blogueiros rompem silêncio da imprensa em MT

"A liberdade da imprensa não faz sentir o seu poder apenas sobre as opiniões políticas, mas também sobre todas as opiniões dos homens. Não modifica somente as leis, mas os costumes (...) Amo-a pela consideração dos males que impede, mais ainda do que pelos bens que produz." (TOCQUEVILLE, Alexis)



por Fábio Pannunzio

Durante quase uma década as estranhas relações entre políticos corruptos e juízes venais foram assunto proibido na pauta dos jornalistas matogrossenses. Relações que eram conhecidas de todo mundo, uma vez que estão no bojo de inquéritos e investigações policiais que são públicos, ficaram oito anos na gaveta dos jornalões e emissoras de rádio e tv.


Desde ontem, esses assuntos voltaram a compor para a pauta e vêm sendo divulgados. Os jornais de Cuiabá, que durante anos se calaram sobre a desfaçatez que corria a olhos vistos, estão noticiando o assunto. Alvíssaras!

A mudança de comportamento foi motivada pelas apurações de dois blogs -- Prosa e Política e Página do Enock -- aos quais posteriormente se juntou o Blog do Pannunzio . Esses blogs trabalharam como uma equipe. A amálgama que os uniu foram as tentativas repugnantes de censurá-los. Os dois primeiros foram censurados pelo presidente da Assembléia Legislativa de Mato Grosso, deputado José Geraldo Riva. O terceiro foi impedido, pela justiça do Paraná, de noticiar assuntos relativos à atuação de uma quadrilha de traficantes de trabalhadores que vinha denunciando.

Armou-se uma inédita e saudável permuta de censura. As páginas eletrônicas passaram a trocar o material censurado. O que um estava impedido de falar era publicado na página do outro. Aos poucos, os jornalistas que editam esses blogs começaram a compartilhar também o trabalho de apuração e a elaboração das reportagens. Criou-se uma verdadeira "redação virtual" com a integração das pautas.

O esforço dos blogueiros culminou com uma série de denúncias sobre irregularidades cometidas por essa grande organização criminosa abrigada no Tribunal de Justiça. A precisão das informações e a apuração milimétrica dos fatos que vinham sendo dolosamente ocultados da opinião pública produziram reportagens indesmetíveis.

As matérias foram sendo paulatinamene confirmadas por fontes idôneas das Instituições. Fontes como os desembargadores Orlando Perri, o corregedor que iniciou todo o processo de investigação dos desvios de seus colegas, e o ex-desembargador Paulo Lessa que, na presidência do TJ, forneceu ao corregedor a retaguarda necessária para desmascarar a atuação insidiosa dos magistrados. Pela primeira vez em quase uma década o trabalho paciente do Ministério Público pode ser conhecido dos leitores desses blogs.

Isso acabou provocando uma enorme pressão social sobre a imprensa convencional em Mato Grosso. Os internautas, formadores de opinião, questinavam por que assuntos da gravidade dos que vinham sendo noticiados nas páginas eletrônicas não encontravam nenhum espaço nos cadernos dos jornalões.

Ontem o pacto de silêncio se rompeu. O primeiro jornal a estampar o escândalo no caderno de política foi o Diário de Cuiabá. A afiliada da Rede Globo em Cuiabá entregou a pauta ao excelente repórter Jonas Campos, que produziu uma ótima reportagem para o noticiário local da TV Centro América. Hoje o jornal A Gazeta finalmente saiu da letargia.

A crise do judiciário agora está consagrada na pauta da imprensa convencional. E deve ganhar espaço também na mídia nacional. A Rede Bandirantes já produziu duas extensas reportagens sobre o problema e jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro estão interessados na investigação. Acenderam-se as luzes sobre a ribalta em que estão nus os Poderes Judiciário e Legislativo de Mato Grosso.

A partir de agora será possível mensurar até onde vai a disposição da imprensa cuiabana de noticiar os escândalos que se seguirão. Os holofotes apontam para o mar de lama em que se transformou a Assembléia Legislativa, que abriga o grande beneficiário da máfia das sentenças judiciais, o deputado José Geraldo Riva. A AL é o maior anunciante do estado. Patrocina não apenas os veículos convencionais, mas também uma malha de blogs que existem apenas com a finalidade de extorquir políticos e empresários e sorver o dinheiro fácil que transborda dos cofres do Legislativo.

Para a população de Mato Grosso, no entanto, já houve um ganho evidente. Com os jornais cumprindo sua obrigação e honrando o papel de informar o público, o braço remanescente dessa quadrilha está com os dias contados.

Quem viver, lerá.

Fonte: Blog do Pannumzio