O trabalhador é deseducado pelo oportunismo do partido, pelo seu desprezo às idéias, e submetido a um processo que o torna incapaz de uma ação autônoma e coletiva.
Por PEDRO ROBERTO FERREIRA*
O pensamento crítico de Maurício Tragtenberg é constituído por meio de Marx e Weber, numa combinação da dialética com a sociologia compreensiva.
Combinação – sempre problemática – mas que Maurício vai assumir com a idéia de ser Marx, o portador da penetrante crítica da infra-estrutura do capitalismo e Weber, o da superestrutura. Algo em torno de considerações em que as relações do processo de trabalho com o processo de produção capitalista explicam a dominação do trabalhador sob o capital e encontram nas formas de dominação, em particular, a dominação burocrática legal, o momento de constituição mais delineado do político.
Isso sem dúvida não deve ser visto como uma nova heresia no campo da explicação sociológica. Karl Mannheim, W.Mills, Florestan Fernandes, Michel Lowy, Karl Lowith, e muitos outros, [1] com suas distinções inevitáveis, também discorreram sobre as possibilidades de pensar a realidade social a partir dessa simbiose metodológica e os benefícios que daí resultam. E, como estes autores mencionados, Maurício também não ignora os riscos da fusão, mas não se intranqüiliza com as críticas que deverão aparecer pelos dois lados: marxiano e weberiano. Parece até mais seguro na situação de um verdadeiro “franco atirador”, com certeza por perceber as maiores possibilidades de entendimento do real, de criatividade nas soluções das suas das contradições de ver nas sutilezas da trama da sociabilidade a mesma importância das determinações mais visíveis, na condição de pensador herético. Dizia-me ele que não é bom se fiar em professores de “livro único”.
Dá para entender a inovação de Maurício Tragtenberg ao transportar o diálogo entre Marx e Weber para o locus da prática revolucionária.
A proposta consiste em que o marxismo revolucionário nos oferece o entendimento durante a construção da base social e material de uma sociedade em transformação, e o anarquismo libertário, a superestrutura. [2]
Mais problemas surgem aqui devido à condição de crítico herético. Para não afrontar o anarquismo, com a suposta leitura liberal do poder político, só poderemos entender Maurício, nas suas críticas às instituições burocráticas, estivesse instrumentalizando Weber na busca de uma reflexão – que, ao deixar de ser imediatamente um efeito da cultura reflexa [3] , construísse as pegadas para apanhar as mediações tão necessárias no entendimento dos conselhos operários.
Se, por um lado, Maurício, não confunde a crítica liberal do estado com a libertária – isso seria impensável na sua obra – do outro, reconhece, em grande medida, que o pensamento libertário não desenvolveu plenamente suas críticas às relações de poder e dominação, no âmbito de certas instituições e organizações, tais como: parlamentos, escolas, partidos políticos, sindicatos, cooperativas de produtores, etc(mesmo em se tratando de um Proudhon, Bakunin, Kropotkin,Malatesta).Daí ele lançou mão da crítica weberiana para compor uma análise das organizações verticalizadas, mas que trouxesse a possibilidade de superação da ordem – sempre.
Ora, nisso, não haverá um tratamento que resgate o pensamento weberiano “puro”, um tratamento da obra de Weber que limpe, por assim dizer, suas contradições, que separe o ser humano Marx Weber da sua teoria sociológica. [4] É bom lembrar que Maurício, devido a sua participação nos partidos políticos de esquerda, em várias décadas [5] , havia estudado a burocracia em outros autores em Trotsky, por exemplo. E, portanto, deverá ler Weber com outra finalidade.
Todavia, ao instrumentalizar Weber, Maurício não o empobrece, ao contrário, torna-o mais vivo, porque afinal, remete-o à realidade social como a uma força teórica.
É assim que o desnudamento da burocracia, sempre apanhada nas relações capitalistas, vai encontrar lá na frente, na possível derradeira crise da sociedade burguesa, a noção de revolução política para trazer liberdade aos trabalhadores como efeito constituído pela democracia operária.
Ainda uma vez nota-se que a noção de revolução política contraria o pensamento libertário porque choca-se frontalmente com o de ação direta, termo imprescindível para a prática anarquista. Basta dizer que o conceito de revolução política, neste caso, vem de Trotsky com o seu “A Revolução Traída”, cuja propriedade é dada na solução da contradição Estado operário porém degenerado. [6]
E o mais desconcertante é que para Maurício a revolução política serve para clarear o ponto absoluto do processo de transformação social, a saber, o encontro da autogestão. Autogestão que as vezes parece conduzir Maurício para a defesa da ação direta: “...a participação real ou a autogestão social não constitui nenhum imperativo ideológico; ela tem sua legitimidade na medida em que surge das reivindicações do movimento real dos trabalhadores”. [7]
Afinal, se é para pensar a ação direta, por que o emprego de revolução política? Ainda mais porque a ação direta dos anarquistas nunca comporta uma dimensão política na prática social, pois trata-se de uma destruição do poder político em cada momento da luta.
Penso que na obra de Maurício não se encontra uma teoria mítica dos trabalhadores. Parafraseando J.J.Rousseau, pode-se dizer que ele não pretendeu uma rediviva “teoria do bom operário”. A questão da revolução política fora colocada para um mergulho do autor, na diversidade do mundo dos trabalhadores, sobre suas possibilidades revolucionárias numa sociedade capitalista.
Contra o espontaneísmo, Maurício tema favor de si as instigantes análises dos trabalhadores alemães nas origens da social-democracia, [8] ou os estudos sobre exploração do trabalho no capitalismo monopolista. [9] No primeiro caso, verifica como a greve aproximava mais os trabalhadores nas minas de carvão da revolução social proposta pelos espartaquistas, do que os operários metalúrgicos propensos à reforma que os integraria à sociedade burguesa. Depois de considerar a força do reformismo nas soluções mais imediatas e prosaicas dos trabalhadores – até porque, diria ele [10] , ninguém vive as vinte e quatro horas diárias de idealismo – bate duríssimo na integração do trabalho via consumo e no sindicalismo que transforma o meio de luta numa finalidade. A perversidade da social-democracia reside nas ilusões que ela mesma cria para os trabalhadores, inserindo-os num mundo que só pode continuar existindo enquanto os nega como sujeitos de toda produção social.
O ideário social-democrata de integração operária no mundo do capital teve, no sindicalismo atual, um grande aliado quando esse, combinando-se com o grande capital, divide-se as tarefas do processo econômico: numa ponta a grande empresa se preocupando com as máquinas, na outra, os sindicatos organizando a mão-de-obra. “É importante situar que no capitalismo desenvolvido a classe trabalhadora é mercado consumidor importante para a produção industrial de bens duráveis. No entanto, é mister notar que não é a produção intensa e a tecnificação do capitalismo que determinam as altas salariais desses operários. Eles, para manterem a participação mais ou menos constante em relação à produtividade global, mantêm como elemento determinante da taxa de aumentos a “ação sindical”. [11]
Ultrapassando as anotações de uma diversidade no mundo dos trabalhadores e suas organizações sindicais, cujo domínio no sindicalismo de empresa é inquestionável, sobretudo nos E.U.A., e daí sua indignação com os modernos sindicatos proprietários de shopping center que mais parecem empresas do capital do que organismos dos trabalhadores; ‘Por meio do capitalismo sindical, o capitalismo moderno se redimensiona: o capitalista cuida das máquinas, o sindicato cuida da disciplinação da mão-de-obra. Noventa por cento das entidades, grupos ou partidos que trazem o nome “operário” têm a finalidade de controlar o operariado”. [12]
Tragtenberg vai insurgir contra os discursos que ocuparam os espaços editoriais nos últimos anos e que apregoam se não o fim das classes sociais, pelo menos, a mesclagem da classe operária nos segmentos sociais médios.
E na recusa dessas tolices que tomam conta de publicações especializadas, jornais, revistas, etc., Maurício reitera as suas preocupações com um entendimento mais sério, objetivo, interpretativo, da classe dos trabalhadores assalariados. “É crença dominante que a classe operária não e distingue da classe média. Mesmo que muitos operários se sintam parte integrante das classes médias, e mesmo que isso se dê pela renda, sua condição é de proletário: trabalho embrutecedor, produção dividida, ou divisão de trabalho, rigor do ritmo, frustrações intelectuais, alienação do indivíduo.” [13]
Recorrendo a Marx, o autor de Burocracia e Ideologia irá colher a diversidade a partir da organização dos trabalhadores nos locais de trabalho, e, com o pensador e revolucionário alemão, defenderá a ASSOCIAÇÃO, como forma unificadora dos conselhos operários. Uma associação, sim, com aquele caráter internacionalista. “A associação cria as precondições de união dos trabalhadores, porém a divisão de trabalho no interior das empresas e sua articulação nos vários ramos da produção social e econômica constituem seu maior obstáculo.
Embora a reivindicação de aumentos salariais seja considerada inerente à classe operária em sua totalidade, ela não elimina a hierarquização dos salários, dividindo os trabalhadores. A abolição do sistema de opressão e de exploração do salariato pressupõe a unificação dos operários, a qual elimina a concorrência mantida entre eles. Para Marx, isso se daria por meio da criação de um fundo comum de subsistência pela recomposição coletiva da vida, compartilhando-se a alegria inerente à luta associada dos trabalhadores.
Marx descobre que a associação nascida no processo das lutas, continuando após seu término – sempre passageiro -, representa a perspectiva revolucionaria que leva à ruptura das formas burguesas de trabalho assalariado. A ruptura não é algo para ser deixado para um futuro remoto, mas inicia-se dentro da própria associação”. [14]
Trabalhar o sentido de associação deixado por Marx, a partir da organização dos trabalhadores nos locais de trabalho, foi algo jamais abandonado por Maurício, mesmo quando, militando em certos partidos, o dever de ofício o levasse a uma envergonhada defesa do centralismo democrático. Assim, nas páginas do “Orientação Socialista”, jornal do Partido Socialista Revolucionário de inspiração trotskista (1946-1948), é mais presente a tese da frente únic de todos os trabalhadores, a impreterível organização dos trabalhadores nos locais de trabalho, fossem urbanos ou rurais, do que uma obstinada sustentação da forma de organização revolucionária, dominante nos PCs, fundamentalmente, após 1925, uma forma em geral vazia de forças sociais efetivas.
Junto com Hermínio Sacchetta na desilusão com o bolchevismo, Maurício vai para uma organização política intitulada Liga Socialista Independente. Criada em meados dos anos cinqüenta, a organização era luxemburguista, mas ainda contava com uma visão trotskista da realidade brasileira, e nela a democracia operária será condição para qualquer movimento revolucionário dos trabalhadores.
É nesse desdobramento do processo social com suas metamorfoses que parte organização dos trabalhadores – outrora isolados – nos locais de trabalho e passa pela constituição dos conselhos operários – instância do surgimento de uma consciência operária -, criando-se então uma associação geral, onde Maurício encontra as razões e algumas certezas para a transformação revolucionária socialista do nosso tempo. E, assim, munido pela conclusão de que o trabalhador pode ser o construtor do próprio destino, põe-se a dialogar com um marxismo que vê no partido a sua fundamentação. “A concepção leninista de partido enquanto minoria organizada que deva dirigir uma maioria informe, o proletariado, leva o trabalhador a regredir em seu nível de consciência social e política. O trabalhador é deseducado pelo oportunismo do partido, pelo seu desprezo às idéias, e submetido a um processo que o torna incapaz de uma ação autônoma e coletiva. A classe operária perde a confiança na sua própria capacidade de luta, organização e compreensão do processo social, transferindo-se ao partido.
Essa sacralização do partido caminha paralela à ideologia da nulidade operária. Um partido, por mais comunista que se proclame, sem um alto grau de organização do trabalhador em sindicatos, cooperativas, não passará de um instrumento para conseguir seus próprios objetivos imediatos, nem sempre coincidentes com o que pretendem os operários.” [15]
Mas é bom não perder de vista que Maurício também dialoga com as forças políticas da burguesia, leia-se neste caso, a social-democracia, não atenuando em nada sua críticas. “Os partidos são dirigidos por castas, intelectuais e políticos profissionais. Não são democráticos, porque neles domina uma minoria dirigente com interesses específicos.
Numa democracia política, o programa de cada partido somente é conhecido por uma minoria; a grande maioria só conhece slogans, palavras de ordem e promessas ambíguas. Numa democracia parlamentar, a decisão é tomada por uma minoria, que, assim sendo, se corrompem e decide em seu próprio beneficio.” [16]
Por confiar nos trabalhadores, Maurício desacredita dos partidos políticos e da capacidade de eles representarem a vontade coletiva em pleno movimento de realização efetiva. A tendência é sempre de obstruções neste movimento dado à duplicidade de representação e de interesses que deslocam das suas bases originárias. Em caso de processo socializante, poderá ocorrer, como de fato se deu, um profundo distanciamento entre partido e trabalhadores gerando uma burocratização do poder político organizado (Estado). Já no interior da sociedade burguesa, no seu melhor momento, poder-se-á observar a criação de um domínio político de sábios, técnicos, intelectuais, etc [17] que oprime trabalhadores através de métodos científicos, dando a impressão de que a democracia possível é a da exclusão, do subjugamento, da repressão, da submissão.
Por confiar nos trabalhadores, sempre, até porque foi um deles [18] , Maurício não nos legou uma obra weberiana. Ao contrário do mestre alemão, sempre confiou numa “democracia de rua”, e o critica quanto este apela para a noção de “ditadura militar dos sargentos” [19] para interpretar a Revolução de 1917 na Rússia.
Nas ruas, o militante sempre sustentou a noção de autonomia operária diante dos partidos políticos, posto entender que o trabalhador pode e deve ser o construtor do próprio destino, já nas escolas, o educador Tragtenberg sempre estimulou o estudante a refletir, a pensar as grandes teorias do social, com a própria cabeça.
Maurício Tragtenberg singulariza a sociologia brasileira e não somente pela sua estimulante obra de crítica social, uma obra que fala para muitos auditórios, daí sua característica multidisciplinar, todavia, desde que esses não acomodem os trabalhadores como meros ouvintes. Também com sua generosidade, sua solidariedade com a pessoa comum, sua ética inatacável, sua disponibilidade, sua luta incansável por uma sociedade socialista, marca os melhores momentos da educação no Brasil.
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* Publicado originalmente in: Tudo Flui... - Revista da Aduel - Sindprol - V. 5 - nº 1 - Janeiro/junho de 2001, pp. 35-39
[1] - Basta o leitor confrontar a famosa “Introdução de 57” de K. Marx com a teoria das categorias sociológicas no livro I da “Economia y Sociedad” de M. Weber, para ter uma idéia das dificuldades de pensar um imbricamento entre os dois geniais pensadores. A bibliografia que discute tais dificuldades já é bastante significativa em nossos dias.
[2] - ver Maurício Tragtenberg “Rosa Luxemburg e a Crítica aos Fenômenos Burocráticos”, in Isabel Maria Loureiro e Tullo Vigevani (orgs.) – Rosa Luxemburg – a recusa da alienação – São Paulo, Ed. Unesp/Fapesp, 1991, pg. 37.
[3] -Sobre a relação de uma cultura reflexa com os compromissos do intelectual, ver Paulo Eduardo Arantes “Ajuste Intelectual” in Fernando Haddad (org.) – Desorganizando o Consenso – São Pulo/Petrópolis, Ed. Vozes/Fundação P.Abramo, 1998, pgs. 34-35.
[4] -A obra já clássica de Maurício Tragtenberg “Burocracia e Ideologia”, São Paulo, Ed. Ática, 1974, abriga uma das mais insinuantes análises de Marx Weber, no encontro de uma explicação sociológica que contenha a obra, e seu contexto histórico.
[5] -Em pouco mais de vinte anos, Maurício havia militando em três partidos políticos de esquerda: o PCB, o PSR e a L.S.I. Ver o seu “Memorial” publicado na Revista “Educação e Sociedade”, ano XIX, 65, Cedes, Campinas, 1998.
[6] -Trotsky argumenta, no livro mencionado, que a burocracia que teria surgido na União Soviética era produto dos descaminhos da Revolução de 1917 e não originária do Estado Czarista. Portanto, uma revolução política que viesse transformar o Estado poderia colocar novamente o processo revolucionário no seu verdadeiro curso, se caso reconstituísse os soviets (conselho operários).
[7] -Tragtenberg, M. “Uma Prática de Participação: As Coletivizações na Espanha (1936-1939)” in (vários autores) – Participação e Participações – Ensaios sobre Autogestão – São Paulo, Ed. Babel Cultura, 1987, pg. 31.
[8] -Tragtenberg, M. “Rosa Luxemburg e a Crítica aos Fenômenos Burocráticos”, op.cit., pgs. 39-40, e ver também “Burocracia e Ideologia” pgs. 97-98 e segs.
[9] -Tragtenberg, M. – Administração, Poder e Ideologia – São Paulo, Ed. Moraes, 1980, pgs. 97-146.
[10] -Tragtenberg, M. “Rosa Luxemburg...” pg. 40.
[11] -Tragtenberg, “Administração, Poder e...” pgs. 97-98.
[12] -Tragtenberg, M. – Reflexões Sobre o Socialismo – São Paulo, Ed. Moderna, 1986, pg. 74.
[13] -Tragtenberg, M. “Administração, Poder...” pg. 103.
[14] -Tragtenberg, M. “Reflexões sobre o Socialismo” pg. 11.
[15] -Tragtenberg, ibid, pg. 79.
[16] -ibid, pg. 70.
[17] -Sobre esta questão ver um autor que também influenciou a crítica de Maurício Tragtenberg: Rudolf Rocker – Nacionalismo y Cultura – Madrid, Les Ediciones de La Piqueta, 1977, pg. 308.
[18] -ver Maurício Tragtenberg “Memorial”.
[19] -Tragtenberg, M. “Marx Weber e a Revolução Russa” in – Estudos Cebrap 18 – São Paulo, out/nov/dez 1976, pg. 63.
*PEDRO ROBERTO FERREIRA
Doutor em Ciência Política e docente no Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Londrina e autor de O Conceito de Revolução da Esquerda Brasileira – 1920-1946 (Londrina, EDUEL, 1999)

