
Edilson AlmeidaRedação 24 Horas News
Pedofilia, nunca se falou tanto. Por conseqüência, nunca se descobriu tanto. Conceitualmente, trata-se de perversão sexual, na qual a atração sexual de um indivíduo adulto está dirigida primariamente para crianças pré-púberes ou não. Se caracteriza em atos sexuais entre adultos e crianças abaixo da idade de consentimento. A Câmara Municipal de Cuiabá, num ato político que pode ser considerado bom, mas que revela também um certo “desespero” na tentativa de fugir do lamaçal de denúncias e problemas que vem acumulando ao longo dos anos, decidiu criar a CPI da Pedofilia. Atendeu-se aos ecos provocados pelos escândalos que se sucedem. Na proposta do vereador Roosivelt Coelho (PSDB), 19 assinaturas.
Isso mesmo: 19 assinaturas. E uma chama bastante atenção. É dele sim, verador Ralf Leite (PRTB). Ou melhor, do contraditório vereador Ralf Leite, personagem de um dos maiores escândalos políticos dos ultimos tempos em Mato Grosso, com forte repercussão perante a sociedade. Eleito sob denúncias de compra de votos – inclusive com esquema dentro do sistema penitenciário – Ralf foi flagrado em ato libidinoso com um travesti nas vias de baixo meretrício do Zero Quilômetro, em Várzea Grande. Nada contra a opção sexual do rapaz, mas, tratava-se de um menor.
A história contada sobre a passagem de Ralf com o travesti menor é de vexame. Ao ser abordado pelos soldados Benedito Costa e Gomes, por volta das 5 horas da chamada “noite sem fim”, Ralf saiu do veículo com as calças arriadas e a genitália à mostra. Apresentou a documentação do carro e não portava carteira de habilitação. Indicava sinais de embriagueis, motivando a Polícia a recolhê-lo para o teste do bafômetro no 4º Batalhão, ali não muito longe. Daí para frente, aconteceu de tudo: apelos para os policiais deixarem o caso de lado, se alterou, fez ameaças com o uso do nome do pai, um coronel reformado da Polícia Militar, e, em seguida, do cargo para qual foi eleito. No fim, ofereceu dinheiro.
Ralf realizou de uma só vez tudo o que um cidadão não pode cometer. Muito menos um representante do povo. O escândalo ganhou todas as dimensões possíveis. Ralf chorou. Logo, entrou com pedido de afastamento para cuidados mentais. O tempo passou. Ele retornou, foi chegando aos poucos, encostando aqui, ali. Nesse meio tempo, mesmo sob a promessa dos colegas de que a questão não acabaria em “pizza”, os aliados do vereador já davam risadas. Acordos foram costurados – denunciados, inclusive por 24 Horas News, mas, como se sabe, quando o espírito de corpo da classe política se une, o povo que se exploda.
Ralf hoje se dá ao luxo de, quatro meses depois de estar aos abraços com um travesti menor, circular com desenvoltura ímpar entre seus pares. O tempo tratou de consertar aquela “noite”. Nas sessões, Ralf conversa, dá risadas, discursa, defende e, agora, no mais alto grau do cinismo permitido pelo conjunto de colega, assina o requerimento de uma CPI que vai investigar atos de adultos como o que praticara a pouco mais de quatro meses.
Em outras palavras, se a Câmara de Cuiabá precisava de uma sentença de que a coisa vai de mal a pior no chamado poder representante do povo, Ralf Leite cuidou bem. Implícito, a própria questão da moralidade. Tudo bem que o vereador nega tudo que as evidências mais eloqüentes demonstram com clareza condenatória. Pelos caminhos processuais, tem conseguido derrotar via judicial o procedimento legislativo – que falava em sua cassação por falta de decoro. Ao ver o requerimento da CPI da Pedofiligia, verdade que Ralf ficou na chamada “sinuca de bico”: se não assina, fica ruim; se assina, como o fez, fica ruim também. Na dúvida, induto pró-réu.
A expectativa é de que a tal CPI da Pedofilia não seja, a exemplo de muitas outras, apenas um palco de patifaria política, sem resultados concretos. Do ponto de vista político, ninguém aposta um “pequi roído” como se diz a gíria local, no Legislativo cuiabano – como de resto em quase todas as cidades brasileiras, desgastado e sem credibilidade alguma. O prazo para a conclusão dos trabalhos da comissão é de 120 dias, podendo ser prorrogado.
Já no posto de presidente da CPI, o vereador tucano disse que o primeiro passo da comissão será ouvir todas as instituições ligadas ao assunto. A ideia, em princípio, é detectar os principais causadores da pedofilia, bem como encontrar meios de punir com severidade os autores desse tipo de crime. "O maior problema é a impunidade", avalia.
Os vereadores Chico 2000 (PR) e Lueci Ramos (PSDB) já se propuseram a ocupar o cargo de relator da CPI. Porém, um dos mais cotados é o vereador Toninho de Souza, Ele analisa que um dos maiores problemas está na conivência de terceiros para com o pedófilo. Cita o caso do taxista que levou o pai e a garota de nove anos a um motel. Lá a criança foi estuprada pelo próprio pai.
O vereador Francisco Vuolo (PR) também foi à tribuna e fez um apelo para que a sociedade se mobilize contra a pedofilia. Convidou a população a participar de vários eventos programados para iniciar no próximo dia 11, quando será realizado um ato público na Praça Alencastro, as 8h. Já no dia 13 haverá uma Blitz Educativa em Várzea Grande, que vai passar pelos postos de combustíveis São Matheus, Zero, Santarém e no Trevo do Lagarto. A movimentação será a partir das 19h e terá a participação das polícias Civil, Militar e Rodoviária Federal.
No dia 14 será feita uma panfletagem nas avenidas Mato Grosso e Getúlio Vargas, a partir das 15h. Conforme a programação, está agendada para o próximo dia 15, as 9h, uma audiência pública na Assembléia Legislativa com a presença do senador Magno Malta (PR/ES), que preside a CPI da Pedofilia no Congresso Nacional. Em seguida, no dia 18, será realizada a Marcha pela Paz contra a Violência. A concentração será na Praça das Bandeiras, no Centro, às 8h. A violência contra a criança também será debatida no dia 19 em seminário na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que está previsto para começar as 8h.
